Para frei Gino, a pobreza nunca é abstrata

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Todos o conhecem. O Frei Gino usa uma barba branca, rala, que lhe cobre o pescoço como um colar. Tem uma voz branda com um indisfarçável sotaque italiano. Gino Alberati é padre mas ali, nas margens do rio Içá, na paróquia de Santo António de Lisboa, é mais do que isso. É alguém que doou a sua vida por inteiro às terras da Amazónia. É um amigo. Um amigo para todas as ocasiões. Um verdadeiro pronto-socorro.

Capuchinho pronto-socorro

Desde os anos setenta do século passado que Frei Gino Alberati dedica todo o seu tempo às pessoas que vivem na Amazónia. Ele é padre e conselheiro. É assistente social, professor e amigo. E até faz de enfermeiro e médico se houver alguma urgência. Para este frade capuchinho, de quase 80 anos, não há tempo nem distância quando se trata de salvar a vida de alguém. Por ali, numa região escondida da civilização, onde os rios fazem as vezes das estradas, as populações estão longe de tudo, transformando tantas vezes o que pode ser uma insignificância em casos de vida ou de morte.

A disponibilidade de servir a comunidade transformou o Frei Gino num exemplo. A sua base de trabalho está na paróquia de Santo António de Lisboa, situada na cidade de Icá. Ao todo são três missionários capuchinhos a que se juntaram dois noviços. Têm imensas pessoas para acudir. São mais de trinta comunidades que se estendem ao longo dos rios. A maior parte dos que vivem nessas aldeias são indígenas. Pertencem à tribo dos Tikuna. Para o Frei Gino, todos são seus paroquianos. Todos precisam de cuidados médicos, de ajuda na educação e na própria sobrevivência no dia-a-dia.

A distância dos povoados é um dos problemas mais complexos que se colocam à Igreja local. A jornada de ida e volta pelo rio Icá demora pelo menos vinte dias. Duas vezes por ano, Frei Gino faz questão de se meter no barco para se encontrar com estas populações ribeirinhas. É sempre uma viagem emotiva, feita de abraços, risos e lágrimas. De reencontros e despedidas. Ao longo do ano, Frei Gino faz ainda dezenas de visitas mais curtas a essas comunidades que estão tão longe dos olhares e das preocupações da sociedade brasileira.

Salvar vidas pelo rio

O barco, que a Fundação AIS ofereceu à paróquia de Santo António de Lisboa, tem ajudado, e muito, a encurtar os tempos das viagens, permitindo transportar mais pessoas. A mudança de um pequeno bote quase rudimentar para um barco moderno fez toda a diferença. “Antes, a minha embarcação era bem precária. Eu sabia quando partia, mas nunca sabia quando voltaria ou sequer se voltaria. Com este barco, além de todo o trabalho pastoral, também salvamos vidas.”

A pobreza nunca é abstrata. Ali, na enorme Amazónia, o Frei Gino conhece os rostos dos seus paroquianos. Conhece os seus nomes e as suas dificuldades. Sabe por que riem e quando choram.

Quando parte em missão, o frade capuchinho celebra a Missa, casamentos, baptiza crianças e adultos e ouve os fiéis em confissão. É um padre de mochila às costas com quase oitenta anos de idade. Para ele, não há barreiras. Nem a língua é um obstáculo. Os índios Tikuna estão no centro das suas preocupações. Desde 2006 que os capuchinhos têm trabalhado com esta comunidade indígena e são cada vez mais os que se sentem acolhidos na Igreja Católica. A tal ponto que surgiu a necessidade de se produzir informação catequética específica para estas crianças. E foi assim que, com o apoio da Fundação AIS, se procedeu à tradução e distribuição de cerca de 10 mil exemplares da ‘Bíblia das Crianças’ na língua local. Agora, por ali, falar tikuna não é mais uma barreira para as crianças aprenderem a rezar.

É, isso sim, mais uma pequena vitória do Frei Gino, alguém que doou a sua vida por inteiro às terras da Amazónia.

Fonte: Capuchinhos.org

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