“Estou aqui novamente, com alegria, para celebrar com vocês a Vigília da Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria e confiar à Menina Maria tudo o que ainda nasce nesta pobre, porém magnífica, humanidade: frágil como uma semente, mas sinal da fidelidade de Deus. Sim, Maria é o alvorecer de um novo dia, do nosso mundo finalmente liberto do mal. Nós estamos aqui, perto dela, ao redor do Altar de onde a salvação nos vem e nos transforma, filhos no Filho. Peçamos a ela o seu Bom Conselho, para acolhermos a Palavra divina, guardá-la dentro de nós e trazê-la à luz através de decisões corajosas e sábias, de uma conversão autêntica.”
Inteligência que conversa com Deus
Neste lugar de antiga presença agostiniana, Leão OXIV retornou às páginas bíblicas, lembrando a propósito as palavras “São Tomás de Villanova, frade e bispo agostiniano que, dedicando sua vida ao serviço dos pobres, penetrou profundamente a verdade da fé. Ele soube ver o paradoxo da pequenez e, por assim dizer, da marginalidade de Maria, centralizada na economia da salvação”. São Tomás se perguntava: “Como deve ter sido o nascimento de uma menina na época de Joaquim e Ana?” “Refleti muitas vezes”, escreve ele, “e perguntei-me por que os evangelistas, que falaram tão extensamente de São João Batista e dos apóstolos, nos contam de forma tão sucinta a história da Virgem Maria, que supera todas as outras em sua experiência e estatura pessoal. Por que, pergunto, não nos foi contada a sua concepção, o seu nascimento, a sua educação, os seus hábitos, as virtudes que a adornavam, a relação humana que tinha com o seu filho, como se relacionava com ele, como vivia com os apóstolos após a sua ascensão? Todas essas coisas eram importantes, e os fiéis as teriam lido com singular devoção, e teriam agradado ao povo comum. Ó evangelistas, eu me dirijo a vós! Por que nos privastes de tamanha alegria com o vosso silêncio? Por que omitistes detalhes tão alegres, tão aguardados, tão agradáveis?”.
“Encontramos nessas palavras uma importante sugestão para a nossa fé: questionar as Escrituras e seus autores, discutir o texto e dialogar com as testemunhas da Revelação como se fossem amigos. Somos, de fato, “concidadãos dos santos e membros da família de Deus”, e da própria Maria aprendemos a inteligência que conversa com Deus, que faz perguntas e interpreta os acontecimentos, guardando-os e conectando-os no coração.”
O caminho de Deus é simples e silencioso
De acordo com São Tomás de Villanova, os evangelistas “permaneceram em silêncio sobre ela, pela simples razão de que a glória da Virgem estava toda nela, e podia ser imaginada em vez de descrita, e que, como resumo da sua história, o que está expresso no título é suficiente: que Jesus nasceu dela”.
“Celebramos o nascimento de uma menina chamada a ser a Mãe de seu Criador, a Mãe de Deus que salva. No entanto, ela nasce simplesmente uma menina, como as filhas e netas que seguramos em nossos braços. Hoje, ela possui títulos nobres e elevados, de Senhora e Rainha, mas o caminho de Deus foi e permanece mais simples e silencioso, porém não menos poderoso e transformador. É o caminho do próprio Jesus.”
Imaginar a paz
“Assim, como Maria, também nós somos “predestinados a sermos conformes à imagem do Filho”: pela graça, certamente, mas também desejando e preferindo a sua estrada, as suas escolhas, o seu caminho. Em Jesus Cristo, Deus escolheu as condições históricas e a mais humilde das criaturas para manifestar a originalidade do seu Reino, no qual a prepotência não tem lugar e a onipotência é criação, serviço e cuidado da vida”, disse o Papa.
Leão XIV nos convidou a dirigir “à pequena Maria”, pedindo-lhe que “a celebração do seu nascimento aumente a nossa paz”. “Sim, queridos irmãos, queremos imaginar a paz — ampliar os limites da compreensão e pintá-la em nossa alma — para reconhecer que ela já existe, para acolhê-la e servi-la. É o dom de Deus, o sopro do Ressuscitado, a obra do Espírito Santo. Deixemos a paz crescer em nós. Ela brotará no mundo. E a Mãe do Bom Conselho nos acompanhará nessa missão”, concluiu.
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