Ataques a imagens de santos em Salvador levantam alerta sobre intolerância religiosa

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Casos registrados em duas paróquias da capital baiana e aumento de denúncias no país reacendem debate sobre liberdade de crença, racismo religioso e responsabilização dos envolvidos.

Ataques a imagens de santos católicos em Salvador têm levantado preocupações sobre intolerância religiosa e liberdade de crença. Em setembro, duas paróquias da capital baiana registraram episódios de vandalismo contra representações religiosas, enquanto dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania apontam aumento das denúncias relacionadas à liberdade de crença ou religião no Brasil.

Entre janeiro e agosto de 2026, o órgão contabilizou 1.865 denúncias no país, que resultaram em 3.330 violações de direitos. Na comparação com o mesmo período de 2025, houve crescimento de 4,8% nas denúncias e de 16,1% nas violações. Na Bahia, foram registradas 124 denúncias e 257 violações.

Para o advogado Luiz Fernando Ribeiro de Sales, procurador-geral de Ribeira do Amparo e professor de Direito e Processo Penal, os números exigem atenção, mas precisam ser analisados com cautela. Segundo ele, o aumento pode refletir tanto a ocorrência de novos casos quanto uma maior conscientização das vítimas e confiança nos canais de denúncia.

O especialista ressalta que o desafio está em transformar os registros em investigações, responsabilização e políticas públicas eficazes.

Ataques a imagens religiosas em Salvador

Um dos episódios ocorreu em 22 de setembro, na Paróquia Jesus Cristo Ressuscitado, no bairro de Plataforma. Um homem entrou na igreja, retirou a imagem de Santa Dulce dos Pobres do altar lateral e a quebrou diante do sacrário. A entrada foi registrada por câmeras de segurança.

O pároco, padre Marcos Venicius Studart Farias, afirmou que a ação contra a imagem levantou suspeitas de intolerância religiosa. Ele também defendeu atenção à saúde mental e à necessidade de conscientização sobre o respeito às crenças alheias. A imagem está em processo de restauração.

A paróquia comunicou o caso à Arquidiocese, registrou boletim de ocorrência e divulgou o episódio nas redes sociais. A Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin) investiga a ocorrência.

Outro caso foi registrado na Paróquia Senhor Bom Jesus dos Milagres, no bairro do Matatu. Na manhã de 11 de setembro, por volta das 7h, a comunidade encontrou quebrada a imagem de Nossa Senhora das Graças. Equipes das polícias Militar, Civil e Técnica foram encaminhadas ao local.

O pároco, padre Valson Santos Sandes, afirmou que a sequência dos episódios causa preocupação, embora não seja possível confirmar uma ligação entre eles. Segundo ele, a imagem foi danificada no rosto e nas mãos, e não havia objetos de metal ou cobre no local que pudessem indicar um possível furto.

O religioso ponderou que as circunstâncias levantam a hipótese de intolerância religiosa, mas ressaltou que a motivação precisa ser apurada pelas autoridades.

Como resposta, a comunidade promove uma campanha para reunir 300 pessoas dispostas a contribuir com R$ 500 cada, com o objetivo de comprar um gradil para reforçar a proteção da igreja. A paróquia também realiza orações em desagravo pelo ocorrido.

Investigações e proteção legal

Os episódios em Salvador integram um contexto nacional de ataques a símbolos religiosos. Entre os casos citados estão a destruição de imagens de Nossa Senhora Aparecida em Novo Progresso, no Pará, e em Londrina, no Paraná, além de ocorrências em Cuiabá, Maceió, Rio Grande, Monte Alegre e Fortaleza.

Diante de episódios de violência contra símbolos religiosos no país, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, determinou que a Polícia Federal instaurasse um inquérito para investigar pelo menos 11 ocorrências.

O delegado Ricardo Amorim, titular da Decrin, explicou que a unidade investiga ataques a imagens e símbolos religiosos quando há indícios de crimes relacionados à intolerância. Segundo ele, a destruição ou profanação de imagens pode configurar diferentes infrações penais, a depender das circunstâncias e da motivação identificada.

A legislação brasileira assegura a liberdade de crença, o exercício dos cultos e a proteção dos locais religiosos. De acordo com o advogado Luiz Fernando Ribeiro de Sales, também pode haver responsabilização civil por danos morais, individuais ou coletivos.

Para o especialista, o principal desafio não está na ausência de normas, mas na aplicação efetiva das leis e na responsabilização dos autores.

Racismo religioso e intolerância

O antropólogo e babalorixá Vilson Caetano, da Casa do Rei e Senhor das Alturas (Ilê Obá Bá L’Okê), relaciona os ataques a um cenário mais amplo de intolerância religiosa. Segundo ele, as religiões de matriz africana enfrentam historicamente esse tipo de violência, que considera ligada ao racismo e à tentativa de deslegitimar identidades, conhecimentos e modos de vida.

Para Vilson, o combate à intolerância precisa enfrentar o racismo, inclusive quando ele aparece disfarçado de discurso religioso. O pesquisador, que é pós-doutor em Antropologia e professor associado da Universidade Federal da Bahia (UFBA), também questiona as dificuldades para implementar o ensino de história da África e cultura afro-brasileira nas escolas.

Embora reconheça a importância do diálogo entre religiões, ele avalia que a construção de uma convivência respeitosa exige enfrentar desigualdades históricas e garantir que diferentes tradições tenham seus direitos respeitados.

Na avaliação dos religiosos e especialistas ouvidos pela reportagem do portal A Tarde, os episódios reforçam a necessidade de investigação, prevenção e respeito à liberdade religiosa, sem antecipar conclusões sobre a motivação de cada ataque.

Reportagem original de Priscila Dórea, publicada no portal A Tarde

 

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