{"id":88684,"date":"2026-10-03T11:18:39","date_gmt":"2026-10-03T14:18:39","guid":{"rendered":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=88684"},"modified":"2026-10-03T11:18:39","modified_gmt":"2026-10-03T14:18:39","slug":"desafio-eleitoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/desafio-eleitoral\/","title":{"rendered":"Desafio eleitoral"},"content":{"rendered":"<p>O maior desafio no pleito eleitoral relaciona-se a cada cidad\u00e3o, considerada a responsabilidade sociopol\u00edtica do voto, instrumento para escolher representantes para o exerc\u00edcio de mandatos nas inst\u00e2ncias do poder. O voto define rumos, abre ciclos que podem, ou n\u00e3o, levar a novas respostas. \u00c9 instrumento insubstitu\u00edvel na escritura de uma nova p\u00e1gina na hist\u00f3ria de uma na\u00e7\u00e3o. Aos candidatos compete o desafio de convencer o eleitor e, encontrando \u00eaxito, exercer seus mandatos com responsabilidade moral, correspondendo \u00e0s exig\u00eancias do of\u00edcio. Aqueles que se submetem \u00e0s urnas costumam ter certa facilidade narrativa para compor um discurso com promessas e prop\u00f3sitos. Mas, quando se busca quem \u00e9 realmente capaz de intervir na realidade social, abrindo caminho para novas respostas, percebe-se uma realidade diferente: significativa parte da classe pol\u00edtica busca simplesmente validar a pr\u00f3pria imagem, inclusive a partir de fal\u00e1cias ou do costumeiro ato de promover a desmoraliza\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio. Consolida-se, com isso, um contexto em que a pol\u00edtica perde a sua propriedade de construir entendimentos, enquanto se adota a demoli\u00e7\u00e3o moral do semelhante em busca de se obter dividendos eleitorais. Em consequ\u00eancia, a credibilidade do mundo pol\u00edtico-partid\u00e1rio se enfraquece e os cidad\u00e3os n\u00e3o conseguem mais reconhecer refer\u00eancias indispens\u00e1veis para o qualificado discernimento do voto.<\/p>\n<p>A credibilidade no universo pol\u00edtico torna-se especialmente amea\u00e7ada quando a ideologia de cada partido ocupa o centro das aten\u00e7\u00f5es, com os par\u00e2metros essenciais do sistema democr\u00e1tico perdendo espa\u00e7o. \u00c9 preciso, pois, dedicar especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia que, conforme sublinha S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, na Carta Enc\u00edclica \u201cCentesimus annus\u201d, assegura a participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os nas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, oferece uma engenharia que garante aos governados a possibilidade de escolher e controlar os pr\u00f3prios governantes, seus representantes, e at\u00e9 de os substituir pacificamente, quando necess\u00e1rio. A Doutrina Social da Igreja Cat\u00f3lica ensina que a democracia n\u00e3o pode favorecer a forma\u00e7\u00e3o de grupos restritos de dirigentes que usurpam o poder do Estado a favor dos seus interesses particulares ou de seus objetivos ideol\u00f3gicos. Os dirigentes merecedores do voto popular s\u00e3o chamados a respeitar, no sistema democr\u00e1tico, o Estado de direito, assentando-se sobre os alicerces de uma reta compreens\u00e3o do ser humano.<\/p>\n<p>Quem manipula estruturas de participa\u00e7\u00e3o e de corresponsabilidade n\u00e3o possui autoridade representativa e governamental. Uma aut\u00eantica democracia, tamb\u00e9m ensina a Doutrina Social da Igreja, n\u00e3o \u00e9 somente resultado de um respeito formal de regras, mas \u00e9 fruto da convicta aceita\u00e7\u00e3o dos valores que inspiram os procedimentos democr\u00e1ticos. Aceitar esses valores \u00e9 reconhecer e promover a dignidade humana, n\u00e3o ferindo jamais sua magnific\u00eancia, promovendo o respeito aos direitos fundamentais e o compromisso com o bem comum. Esses valores constituem o crit\u00e9rio regulador da vida pol\u00edtica. O exerc\u00edcio do poder n\u00e3o se relaciona, portanto, \u00e0 simples ger\u00eancia de uma m\u00e1quina, permitindo ou promovendo um funcionamento manipulado por interesses olig\u00e1rquicos em detrimento do bem comum. Quando se exerce o poder a partir de interesses pouco&nbsp;nobres, abre-se caminho para a corrup\u00e7\u00e3o, sinalizando desrespeito a valores \u00e9tico-morais inegoci\u00e1veis. O resultado disso aponta para uma realidade ca\u00f3tica que valida cen\u00e1rios de mis\u00e9ria com graves consequ\u00eancias para a maior parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O relativismo \u00e9tico \u00e9 um veneno que corrompe muitas pessoas, com repercuss\u00e3o em funcionamentos institucionais, pela sedu\u00e7\u00e3o do dinheiro f\u00e1cil e abundante. Mina ideais democr\u00e1ticos, contribuindo para que incompetentes, manipuladores e at\u00e9 mesmo organiza\u00e7\u00f5es criminosas ocupem, cada vez mais, inst\u00e2ncias de poder. Uma realidade exaustivamente apresentada na m\u00eddia. S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II assevera que uma democracia sem valores se converte em um totalitarismo aberto ou dissimulado. A hist\u00f3ria mostra que a democracia \u00e9 um ordenamento, um instrumento, e n\u00e3o um fim. A Doutrina Social da Igreja ressalta que o ordenamento democr\u00e1tico precisa ser efetivado em conformidade com a lei moral, \u00e0 qual se deve submeter, como qualquer outro comportamento humano. O ordenamento democr\u00e1tico depende da moralidade dos fins perseguidos e dos meios usados. A democracia requer irrestrito respeito ao Estado de direito no qual \u00e9 soberana a Lei, e n\u00e3o a vontade arbitr\u00e1ria dos que ocupam cargos, preservando o equil\u00edbrio entre poderes.<\/p>\n<p>Encontrar nomes capazes de corresponder \u00e0s necessidades do corpo social \u00e9 o grande desafio no contexto das elei\u00e7\u00f5es. Uma escolha decisiva, quando se considera que a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o deveria ser de compet\u00eancia dos aventureiros. Os nomes que alcan\u00e7arem \u00eaxito nas urnas t\u00eam o dever de se dedicar ao bem comum, exercendo a representa\u00e7\u00e3o com fidelidade a princ\u00edpios morais, o que contempla compartilhar as dores do povo e, consequentemente, dedicar-se \u00e0 busca por solu\u00e7\u00f5es para problemas sociais. O voto consciente contribui para que prevale\u00e7am, entre os eleitos, aqueles que re\u00fanem virtudes fundamentais, como a paci\u00eancia, a caridade, a mod\u00e9stia, a modera\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia de que o exerc\u00edcio do poder \u00e9 uma forma de servi\u00e7o. O Estado precisa de uma administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica qualificada, gestora eficaz dos bens do povo, tudo fazendo para servir aos cidad\u00e3os. Pesa a escassez de nomes que re\u00fanem as virtudes essenciais para bem exercer essa miss\u00e3o. \u00c9 justamente essa escassez que torna ainda mais importante o exerc\u00edcio da cidadania neste momento: neste desafio eleitoral que envolve todos na sociedade brasileira n\u00e3o se pode perder a chance de dar um passo adiante, a partir de discernimentos e de escolhas qualificadas. Um passo que possibilite escrever novas e exitosas p\u00e1ginas na hist\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por:Dom Walmor Oliveira de Azevedo<br \/>\nArcebispo Metropolitano de Belo Horizonte (MG)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O maior desafio no pleito eleitoral relaciona-se a cada cidad\u00e3o, considerada a responsabilidade sociopol\u00edtica do voto, instrumento para escolher representantes para o exerc\u00edcio de mandatos nas inst\u00e2ncias do poder. 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