{"id":84508,"date":"2025-11-01T21:00:45","date_gmt":"2025-11-02T00:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=84508"},"modified":"2025-11-01T21:56:51","modified_gmt":"2025-11-02T00:56:51","slug":"a-profundidade-do-encontro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/a-profundidade-do-encontro\/","title":{"rendered":"A Profundidade do Encontro"},"content":{"rendered":"<p>Entre olhares que tocam a alma e palavras que silenciam o indiz\u00edvel<\/p>\n<p>\u201cO rosto humano \u00e9 o primeiro texto que o homem aprendeu a ler.\u201d<br \/>\n\u2014 Vil\u00e9m Flusser, Gestos (1994)<\/p>\n<p>Mesmo entre tantas ocupa\u00e7\u00f5es e compromissos, h\u00e1 um instante em que o humano se percebe s\u00f3. Por mais que o tempo se encha de tarefas, algo grita dentro de n\u00f3s: a falta do outro. E \u00e9 nesse espa\u00e7o de car\u00eancia que se confessa o mais simples e profundo dos desejos:<br \/>\n\u201cEu quero tanto poder conversar olhando nos olhos de algu\u00e9m! A vida tem me desafiado muito.\u201d<\/p>\n<p>O olhar \u00e9 mais do que um gesto \u2014 \u00e9 uma travessia. Ao olhar algu\u00e9m, tocamos aquilo que Flusser chamou de o invis\u00edvel vis\u00edvel, o instante em que o rosto deixa de ser superf\u00edcie e se torna signo da alma. Ver e ser visto \u00e9, ao mesmo tempo, um ato de leitura e revela\u00e7\u00e3o; uma gram\u00e1tica silenciosa do esp\u00edrito humano.<\/p>\n<p>Paul Ricoeur, em sua fenomenologia da identidade, lembra que o homem n\u00e3o se resume ao \u201cmesmo\u201d, mas se constr\u00f3i como \u201cipseidade\u201d, isto \u00e9, como aquele que se doa e se narra a partir da rela\u00e7\u00e3o (\u201cSoi-m\u00eame comme un autre\u201d, 1990). Ainda recorda que o homem n\u00e3o \u00e9 apenas o mesmo \u2014 ele \u00e9 ipse, o que se narra e se refaz na presen\u00e7a do outro. Assim, quando duas almas se olham, n\u00e3o apenas se reconhecem \u2014 elas se narram mutuamente. O olhar, ent\u00e3o, \u00e9 narrativa silenciosa que tece uma hist\u00f3ria comum.<\/p>\n<p>Habermas, ao refletir sobre a \u00e9tica da comunica\u00e7\u00e3o, afirma que o verdadeiro di\u00e1logo n\u00e3o busca dominar, mas compreender (\u201cTheorie des kommunikativen Handelns\u201d, 1981). O encontro entre dois olhares sinceros \u00e9 o \u00e1pice desse di\u00e1logo: nele n\u00e3o h\u00e1 vencedores, apenas verdade compartilhada, porque s\u00f3 o entendimento rec\u00edproco sustenta o v\u00ednculo humano.<\/p>\n<p>George Berkeley, por sua vez, ensinou que \u201cser \u00e9 ser percebido\u201d (\u201cesse est percipi\u201d, 1710). Se assim for, o outro s\u00f3 se torna real quando \u00e9 visto com profundidade, e n\u00f3s s\u00f3 existimos de fato quando somos percebidos com amor. A realidade humana \u00e9, portanto, um espelho de presen\u00e7as: o ser \u00e9 visto e, ao ser visto, se torna.<\/p>\n<p>Neste instante de entrega \u2014 quando o olhar toca o olhar \u2014 o tempo se suspende. Parece que algo consome as for\u00e7as e, ao mesmo tempo, renova o f\u00f4lego. No abismo silencioso de dois olhares, Deus sopra novamente o esp\u00edrito sobre o barro, e o barro volta a pulsar.<\/p>\n<p>Depois, cada um segue sua hist\u00f3ria, seus caminhos, seus deveres. Mas algo fica: a mem\u00f3ria do encontro, a certeza de que, ao olhar algu\u00e9m nos olhos, tocamos o que h\u00e1 de mais divino na experi\u00eancia humana \u2014 o mist\u00e9rio da presen\u00e7a. Assim, ao olhar profundo nos olhos de algu\u00e9m, n\u00f3s tocamos sua alma, uma vez que comunicamos com seu interior. Surge, com isso, as mais puras palavras para dizer um ao outro, tendo em vista a solidez da amizade que gera deste encontro. Duas almas que se olham em profundidade e conseguem enxergar a verdade que est\u00e1 numa e noutra pessoa. O fortalecimento deste encontro ganha mais for\u00e7a ainda na medida que ambos conseguem expressar as emo\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas de suas vidas: a profundidade do encontro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias Filos\u00f3ficas<br \/>\n\u2022 FLUSSER, Vil\u00e9m. Gestos. S\u00e3o Paulo: Annablume, 1994.<br \/>\n\u2022 RICOEUR, Paul. Soi-m\u00eame comme un autre. Paris: \u00c9ditions du Seuil, 1990.<br \/>\n\u2022 HABERMAS, J\u00fcrgen. Theorie des kommunikativen Handelns. Frankfurt: Suhrkamp, 1981.<br \/>\n\u2022 BERKELEY, George. A Treatise Concerning the Principles of Human Knowledge. Dublin, 1710.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;Por:Padre Joacir Soares d\u2019Abadia<br \/>\nFil\u00f3sofo, escritor e autor de 24 livros publicados e membro de seis academias liter\u00e1rias.<br \/>\n&nbsp;P\u00e1roco da Par\u00f3quia S\u00e3o Jos\u00e9 Oper\u00e1rio \u2013 Diocese de Formosa (GO)<br \/>\nInstagram: https:\/\/www.instagram.com\/padrejoacirdabadia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre olhares que tocam a alma e palavras que silenciam o indiz\u00edvel \u201cO rosto humano \u00e9 o primeiro texto que o homem aprendeu a ler.\u201d \u2014 Vil\u00e9m Flusser, Gestos (1994) Mesmo entre tantas ocupa\u00e7\u00f5es e compromissos, h\u00e1 um instante em que o humano se percebe s\u00f3. 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