{"id":84153,"date":"2025-09-26T17:41:59","date_gmt":"2025-09-26T20:41:59","guid":{"rendered":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=84153"},"modified":"2025-09-27T17:42:24","modified_gmt":"2025-09-27T20:42:24","slug":"feridas-abertas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/feridas-abertas\/","title":{"rendered":"Feridas abertas"},"content":{"rendered":"<p>Transpassado pela lan\u00e7a do soldado, no alto da cruz, do lado aberto de Cristo jorraram sangue e \u00e1gua. Assim narra o evangelista, testemunha ocular da crucifica\u00e7\u00e3o. A ferida aberta de Cristo se torna fonte eterna e inesgot\u00e1vel de gra\u00e7as e b\u00ean\u00e7\u00e3os. Uma resposta esperan\u00e7osa \u00e0 hist\u00f3ria da humanidade, resposta de reden\u00e7\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o. O sacrif\u00edcio de Jesus arranca a humanidade do fracasso. As chagas de Cristo s\u00e3o contraponto \u00e0s feridas abertas na humanidade contempor\u00e2nea, que se multiplicam revelando a for\u00e7a destruidora da pervers\u00e3o. As dores da civiliza\u00e7\u00e3o fazem ecoar um grito forte com pedidos de socorro \u2013 sinal de que h\u00e1 mais gente ferindo que curando. Mesmo diante de tantas conquistas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas, as feridas da humanidade carecem de adequado tratamento, pois muitas patologias incidem na raz\u00e3o humana. Enfermidades alimentadas pelo h\u00e1bito doentio de buscar abrir feridas, com consequ\u00eancias deplor\u00e1veis para pessoas e institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Estreitezas humanas que promovem feridas sociais s\u00e3o contabilizadas nas iniquidades e indiferen\u00e7as, revelam-se nas manipula\u00e7\u00f5es esp\u00farias e mentirosas para se alcan\u00e7ar lucros, gananciosamente apropriar-se de bens. Requer aten\u00e7\u00e3o as patologias que incidem na raz\u00e3o, tornando-a instrumento para justificar a\u00e7\u00f5es predat\u00f3rias contra o ser humano e o meio ambiente. Entre os males est\u00e1 a mentira, um dos terr\u00edveis aguilh\u00f5es que abrem feridas na cidadania, encobrindo a mesquinhez. A mentira medra no contexto social e distorce a consci\u00eancia cidad\u00e3, patrocinando uma luta insana por poderes. Ningu\u00e9m sai vitorioso, pois essa insanidade leva ao aumento do n\u00famero daqueles que se ferem e amplia a car\u00eancia de pessoas capazes de curar. Com as distor\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia, a mediocridade toma conta, fazendo o ser humano acreditar que o importante \u00e9 buscar ajuntar tudo para si, mesmo que o pre\u00e7o seja trilhar pelas linhas da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o do ser humano \u00e9 porta escancarada \u00e0 viol\u00eancia de todo tipo, pois faz prevalecer os pr\u00f3prios interesses em preju\u00edzo do bem comum. Dentre os diferentes tipos de viol\u00eancia est\u00e1 a busca por eliminar aqueles com os quais se estabelece rela\u00e7\u00e3o de discord\u00e2ncia, mais um sinal da patologia da raz\u00e3o, normalizado a ressentida atitude de se pautar pela vingan\u00e7a. Uma atitude que mina a capacidade para experimentar o sentimento de gratid\u00e3o. Ancorando-se na raz\u00e3o patol\u00f3gica, considera-se o pr\u00f3prio poder como absoluto. Assim, h\u00e1 uma incapacidade para lidar com a diverg\u00eancia, tratando com intoler\u00e2ncia e indiferen\u00e7a aqueles com quem se estabelece rela\u00e7\u00e3o de discord\u00e2ncia. Avoluma-se assim o coro pr\u00f3prio do cinismo das ideologias que criam divis\u00f5es, justificam trucul\u00eancias e seduzem, de modo t\u00e3o intenso, que fazem seus seguidores se considerarem \u201cdonos da verdade\u201d. Alimentam a prepot\u00eancia e o autoritarismo que advogam o direito de n\u00e3o agir com gratid\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que t\u00eam vis\u00e3o de mundo diferente.<\/p>\n<p>H\u00e1, pois, um risco inerente \u00e0s ideologias: rifar ou manipular a moralidade de acordo com os pr\u00f3prios interesses. Essa permissividade frequentemente verificada no partidarismo amea\u00e7a a moralidade e o direito, fazendo com que as rela\u00e7\u00f5es humanas se distanciem do patamar m\u00ednimo de civilidade. Consequentemente, proliferam avacalha\u00e7\u00f5es institucionais, com arranjos que buscam apenas promover amigos e simpatizantes, mesmo que isso signifique acentuar feridas organizacionais. O Papa Bento XVI, em um texto publicado antes de se tornar pont\u00edfice, sublinha que a raz\u00e3o doente se manifesta na crueldade e na indiferen\u00e7a, pouco se importando com a reconstru\u00e7\u00e3o da sociedade e do mundo. Aqueles que se valem da raz\u00e3o adoecida pouco se interessam pela dignidade humana, ignorando os pobres, sofredores e indefesos. Bento XVI diz que o crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 chamado a colocar limites \u00e0 raz\u00e3o ou opor-se a ela, mas a lutar pela sua faculdade de percep\u00e7\u00e3o do bem e do bom, do sagrado e do santo. Assinala ainda que assim se travar\u00e1 o verdadeiro combate contra a desumanidade.<\/p>\n<p>Compreende-se, pois, que o crist\u00e3o, em lugar do cinismo das ideologias, ou dos posicionamentos extremistas, causas de muitas feridas abertas \u00e0 humanidade, tem o desafio de levar a raz\u00e3o a funcionar integralmente, n\u00e3o apenas no \u00e2mbito da tecnologia e do desenvolvimento material do mundo, mas como faculdade para reconhecer o bem, abrindo trilhas para fazer valer e efetivar atitudes alicer\u00e7adas no amor, caminho para sanar as feridas abertas. Nas sendas do amor, a raz\u00e3o brilhar\u00e1 com uma luz nova, liberta das patologias que justificam crueldades, genoc\u00eddios, indiferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o aos pobres da terra; manipula\u00e7\u00e3o de poderes. A raz\u00e3o livre de patologias modifica as rela\u00e7\u00f5es internacionais e cidad\u00e3s, que passam a se ancorar no gosto pela solidariedade, incluindo a nobreza de n\u00e3o se buscar a vingan\u00e7a. \u00c9 hora de imediata e veloz supera\u00e7\u00e3o de todo tipo de ceticismo, para que os crist\u00e3os possam levar nova luminosidade \u00e0 raz\u00e3o, contribuindo para diminuir, at\u00e9 a extin\u00e7\u00e3o, as muitas feridas abertas nas pessoas, nas institui\u00e7\u00f5es e na sociedade. No lugar do personalismo e do modo autocr\u00e1tico de agir, conferir nova luz \u00e0 raz\u00e3o possibilitar\u00e1 ampliar o n\u00famero daqueles que curam, pelo perd\u00e3o e gratid\u00e3o, ampliando a esperan\u00e7osa oportunidade de um novo tempo para a humanidade. Tempo de feridas cicatrizadas com gestos de amor e de reconcilia\u00e7\u00e3o. Ecoe sempre do lado aberto de Cristo para ressoar nos cora\u00e7\u00f5es da humanidade o nobre clamor do Mestre: \u201cAmai-vos uns aos outros como eu vos amei\u201d!<\/p>\n<p>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<br \/>\nArcebispo de Belo Horizonte (MG)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transpassado pela lan\u00e7a do soldado, no alto da cruz, do lado aberto de Cristo jorraram sangue e \u00e1gua. Assim narra o evangelista, testemunha ocular da crucifica\u00e7\u00e3o. A ferida aberta de Cristo se torna fonte eterna e inesgot\u00e1vel de gra\u00e7as e b\u00ean\u00e7\u00e3os. Uma resposta esperan\u00e7osa \u00e0 hist\u00f3ria da humanidade, resposta de reden\u00e7\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o. 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