{"id":83435,"date":"2025-06-02T19:24:37","date_gmt":"2025-06-02T22:24:37","guid":{"rendered":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=83435"},"modified":"2025-06-02T19:24:37","modified_gmt":"2025-06-02T22:24:37","slug":"o-encontro-humano-a-luz-da-filosofia-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/o-encontro-humano-a-luz-da-filosofia-contemporanea\/","title":{"rendered":"O encontro humano \u00e0 luz da filosofia contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<p>Parece-me que o ser humano traz consigo uma necessidade perene \u2014 um desejo que n\u00e3o se sacia \u2014 de um abra\u00e7o, de uma aten\u00e7\u00e3o especial, de uma entrega que transcenda o imediato. Talvez seja saudade, uma saudade grande, quase ontol\u00f3gica: saudade do outro, saudade daquilo que faz de n\u00f3s mesmos uma realidade inteira.<\/p>\n<p>Martin Buber, ao refletir sobre a rela\u00e7\u00e3o humana, afirmou que o homem s\u00f3 se realiza plenamente no encontro, quando o eu se depara e se entrega ao tu \u2014 n\u00e3o como um objeto a ser utilizado, mas como um ser a ser amado. O eu sem o tu n\u00e3o \u00e9 um verdadeiro eu. Assim, \u00e9 no espa\u00e7o intersticial do entre n\u00f3s que floresce a verdadeira identidade. O outro n\u00e3o \u00e9 um espelho, mas um mist\u00e9rio: sem ele, o eu permanece incompleto, fragmentado.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo o ato de vestir um blazer pode parecer acolhedor para quem intui essa necessidade. Ele se torna um s\u00edmbolo: como se o tecido que reveste o corpo fosse tamb\u00e9m o que reveste a alma no encontro humano. A altura ligeiramente erguida por um salto \u00e9 outra met\u00e1fora: n\u00e3o h\u00e1 superioridade nem inferioridade, apenas o nivelamento simb\u00f3lico, o desejo de se colocar \u00e0 altura do outro, de habitar o mesmo horizonte.<\/p>\n<p>O abra\u00e7o, o blazer, o salto \u2014 todos eles, em un\u00edssono, denunciam o anseio do saudoso: um sonhador, um cultivador de encontros, um semeador de presen\u00e7as vividas.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m poderia, talvez, considerar estas palavras po\u00e9ticas, mas n\u00e3o \u00e9 poesia o que se intenta; \u00e9 apenas o voo natural das palavras que se desprendem, como a \u00e1guia que deixa seu ninho em busca do c\u00e9u. Como disse Gabriel Marcel, a comunica\u00e7\u00e3o verdadeira \u00e9 mais do que palavras \u2014 \u00e9 presen\u00e7a, \u00e9 doa\u00e7\u00e3o de ser.<\/p>\n<p>Outros poderiam replicar com certo ceticismo: \u201cPadecer no para\u00edso\u201d, diriam, evocando a imagem paradoxal da m\u00e3e que suporta as dores de uma gravidez de risco \u2014 sofrimento que, no entanto, \u00e9 a antec\u00e2mara de uma vida nova.<\/p>\n<p>O desejo de encontro, no entanto, \u00e9 amb\u00edguo. Ele pode vir mesclado de repulsa, pois h\u00e1 quem tema a alteridade: quem, diante do outro, prefira a reclus\u00e3o do pr\u00f3prio ego. A alteridade implica risco, como bem advertiu Emmanuel L\u00e9vinas \u2014 o rosto do outro \u00e9 uma convoca\u00e7\u00e3o, um apelo, um chamado irrecus\u00e1vel \u00e0 responsabilidade.<\/p>\n<p>No entanto, quando o encontro \u00e9 negado, instala-se a m\u00e1goa sutil: \u201cN\u00e3o tenho nada a te oferecer\u201d \u2014 ou ainda \u2014 \u201cFiz por voc\u00ea o que voc\u00ea n\u00e3o foi capaz de fazer por mim.\u201d Surge a sensa\u00e7\u00e3o amarga de um encontro unilateral, um eu que se doa sem reciprocidade. Como disse Paul Ricoeur, a verdadeira \u00e9tica nasce da reciprocidade reconhecida, da mutualidade que respeita a liberdade do outro sem anul\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o encontro n\u00e3o nos pede nada? N\u00e3o nos exige um m\u00ednimo de entrega? Mesmo o corpo, adormecido e descoberto, pede ser coberto. O cora\u00e7\u00e3o humano tamb\u00e9m clama por ser revestido, amparado pela presen\u00e7a do outro.<\/p>\n<p>Cobrar: pedir de novo, mas n\u00e3o como um d\u00e9bito, e sim como uma s\u00faplica silenciosa. E, ent\u00e3o, a pergunta se imp\u00f5e: qual \u00e9 o sentido de buscar o encontro se sua plenitude depende da abertura m\u00fatua?<\/p>\n<p>Maurice Merleau-Ponty nos lembra que a carne do mundo \u00e9 feita de entrela\u00e7amento: n\u00e3o somos seres isolados, mas entretecemos nossas exist\u00eancias num tecido comum. E ainda que o outro possa fechar-se, resistir, negar o encontro, a busca permanece digna \u2014 pois, como dizia Gabriel Marcel, amar \u00e9 afirmar que o outro \u00e9 insubstitu\u00edvel.<\/p>\n<p>O verdadeiro encontro, portanto, n\u00e3o pode ser exigido, nem cobrado; \u00e9 dom. Um dom gratuito, livre, pleno \u2014 e, exatamente por isso, raro e precioso.<\/p>\n<p>Jean-Luc Marion, por sua vez, nos convida a uma reflex\u00e3o ainda mais radical: o encontro humano \u00e9 um fen\u00f4meno saturado, isto \u00e9, excede qualquer pretens\u00e3o de controle ou apropria\u00e7\u00e3o. O outro, em sua alteridade plena, nos ultrapassa; ele n\u00e3o se reduz \u00e0s nossas categorias, nem \u00e0s nossas expectativas. Ele \u00e9 dado \u2014 pura e inesperada doa\u00e7\u00e3o. E \u00e9 nessa satura\u00e7\u00e3o que se revela a grandeza do encontro: algo que n\u00e3o se calcula, n\u00e3o se mede, n\u00e3o se explica, apenas se acolhe.<\/p>\n<p>Buscar o encontro \u00e9, pois, caminhar na dire\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio. \u00c9 reconhecer que o entre n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 conquista, mas gra\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 posse, mas epifania. E talvez seja essa a mais bela e profunda verdade: o verdadeiro encontro \u00e9 sempre um advento \u2014 uma irrup\u00e7\u00e3o de sentido que nos ultrapassa e nos transforma.<\/p>\n<p>Padre Joacir d\u2019Abadia, fil\u00f3sofo e autor de 21 livros publicados<\/p>\n<p>Siga a\u00ed: https:\/\/www.instagram.com\/padrejoacirdabadia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parece-me que o ser humano traz consigo uma necessidade perene \u2014 um desejo que n\u00e3o se sacia \u2014 de um abra\u00e7o, de uma aten\u00e7\u00e3o especial, de uma entrega que transcenda o imediato. Talvez seja saudade, uma saudade grande, quase ontol\u00f3gica: saudade do outro, saudade daquilo que faz de n\u00f3s mesmos uma realidade inteira. Martin Buber,&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"btn btn-style\" href=\"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/o-encontro-humano-a-luz-da-filosofia-contemporanea\/\">Continue Reading<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":83436,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[69],"tags":[],"class_list":["post-83435","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83435","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=83435"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83435\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":83437,"href":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/83435\/revisions\/83437"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/83436"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=83435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=83435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=83435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}