{"id":69591,"date":"2020-06-26T19:39:33","date_gmt":"2020-06-26T22:39:33","guid":{"rendered":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=69591"},"modified":"2020-06-26T19:42:31","modified_gmt":"2020-06-26T22:42:31","slug":"casa-e-rua-outro-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/casa-e-rua-outro-lugar\/","title":{"rendered":"Casa e rua: outro lugar"},"content":{"rendered":"<p>\u201cFique em casa\u201d \u00e9 o mais interpelante apelo desses \u00faltimos meses ante o necess\u00e1rio e indispens\u00e1vel isolamento social. Esse apelo remete ao ambiente mais significativo e referencial da vida de cada pessoa, a casa, o lugar sagrado da fam\u00edlia. A orienta\u00e7\u00e3o \u201cfique em casa\u201d tem for\u00e7a no combate efetivo \u00e0 pandemia da Covid-19, evitando a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus que \u00e9 letal para muitas v\u00edtimas, submetendo fam\u00edlias ao luto. Uma pandemia que gera ainda colapsos na sa\u00fade e incid\u00eancias na economia. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil a obedi\u00eancia ao imperativo de ficar em casa, evitando aglomera\u00e7\u00f5es e contatos desnecess\u00e1rios. E esse imperativo estampa, ainda mais, o grave problema do d\u00e9ficit e das m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es habitacionais do Brasil, uma vergonha.<\/p>\n<p>A realidade de vilas e favelas reflete a acentuada desigualdade social que caracteriza o pa\u00eds. Para os que n\u00e3o t\u00eam habita\u00e7\u00e3o adequada, como ficar em casa? E como se n\u00e3o bastasse, h\u00e1 ainda uma quest\u00e3o que torna mais cruel essa situa\u00e7\u00e3o: no outro extremo, entre os que t\u00eam casa, a orienta\u00e7\u00e3o para permanecer no lar \u00e9 tratada com esc\u00e1rnio. H\u00e1, inclusive, os que incitam a popula\u00e7\u00e3o a ir para as ruas, obviamente aumentando os riscos de contamina\u00e7\u00e3o. Pessoas insens\u00edveis a uma realidade \u00f3bvia: a sa\u00fade requer moradia digna e sustent\u00e1vel. O equil\u00edbrio na natureza, fundamental para prevenir pandemias, n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ado apenas com o bem-estar de pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o. A exclus\u00e3o de muitos gera adoecimentos que amea\u00e7am toda a sociedade.<\/p>\n<p>Especificamente sobre a segrega\u00e7\u00e3o sofrida pelos que n\u00e3o t\u00eam casa, a refer\u00eancia alcan\u00e7a tamb\u00e9m aqueles que at\u00e9 possuem um endere\u00e7o, mas destitu\u00eddo de m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es para a habita\u00e7\u00e3o. Esse cen\u00e1rio revela a fragilidade social que n\u00e3o isenta, inclusive, os que se acham protegidos da contamina\u00e7\u00e3o por um v\u00edrus. A sa\u00fade do planeta, de uma sociedade, depende de condi\u00e7\u00f5es menos desiguais no campo da moradia \u2013 cada um tem direito a uma casa digna para viver. Assim, a orienta\u00e7\u00e3o \u201cfique em casa\u201d deve tamb\u00e9m representar um clamor que leve a um novo significado relacionado \u00e0 rua \u2013 fortalecendo o seu sentido de agrega\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, da coopera\u00e7\u00e3o, do encontro, de interc\u00e2mbios e servi\u00e7os ao pr\u00f3ximo, que \u00e9 irm\u00e3o, para gerar inclus\u00e3o e vencer abismos sociais que adoecem.<\/p>\n<p>Mas sempre se reconhe\u00e7a: a for\u00e7a social e pol\u00edtica da rua nunca substituir\u00e1 a import\u00e2ncia da casa, com seu sentido mais forte e fundamental &#8211; \u00e9 a primeira escola do amor, da f\u00e9, dos ensinamentos indispens\u00e1veis \u00e0 civilidade, do desenvolvimento da compet\u00eancia em gerar e cultivar v\u00ednculos. A casa tem uma sacralidade que ultrapassa os limites estreitos de relacionamentos. \u00c9, para al\u00e9m de sua configura\u00e7\u00e3o material, sagrada sustenta\u00e7\u00e3o do viver e do aprender a viver. Apesar disso, movimentos civilizat\u00f3rios levaram \u00e0 relativiza\u00e7\u00e3o do valor pedag\u00f3gico e existencial da casa que, para muitos, tornou-se apenas um alojamento noturno, um \u201cpoint\u201d para atendimento de algumas necessidades muito b\u00e1sicas, a exemplo do repouso, sem considerar tantas outras, igualmente essenciais.&nbsp; As pessoas desaprenderam, assim, por exemplo, sobre a import\u00e2ncia da conviv\u00eancia possibilitada pela casa. H\u00e1 dificuldade para se relacionar qualificadamente com quem se partilha o mesmo ambiente. Paradoxalmente, por estar desabituado a ficar no pr\u00f3prio lar, o ser humano tamb\u00e9m \u00e9 incapaz de lidar com a solid\u00e3o. At\u00e9 se deprime. Percebe-se uma dificuldade para cultivar a interioridade. Ficar em casa torna-se, neste contexto, desafiador, e revela car\u00eancias human\u00edsticas que levam a esgotamentos ps\u00edquicos e aqueles inerentes \u00e0 pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<p>Casa e rua devem ser consideradas a partir de renovado significado, compreendidas como outro lugar, diferente do que at\u00e9 ent\u00e3o se imaginava. Sem a casa, as institui\u00e7\u00f5es se enfraquecem e h\u00e1 despersonaliza\u00e7\u00e3o do ser humano. A Igreja de Cristo, por exemplo, nasce nos lares e, de casa em casa, fortalece a sua presen\u00e7a servidora no cora\u00e7\u00e3o do mundo. Ao perdurar a exigente e indispens\u00e1vel convoca\u00e7\u00e3o \u201cfique em casa\u201d, a sociedade aproveite para cultivar e enriquecer a compreens\u00e3o a respeito da casa e da rua. Nesses espa\u00e7os, sejam adotados estilos de vida renovados para superar fragilidades e enfermidades. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/p>\n<p>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte (MG)<\/p>\n<p>Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cFique em casa\u201d \u00e9 o mais interpelante apelo desses \u00faltimos meses ante o necess\u00e1rio e indispens\u00e1vel isolamento social. Esse apelo remete ao ambiente mais significativo e referencial da vida de cada pessoa, a casa, o lugar sagrado da fam\u00edlia. 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