{"id":69246,"date":"2020-05-15T20:32:02","date_gmt":"2020-05-15T23:32:02","guid":{"rendered":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=69246"},"modified":"2020-05-15T20:32:02","modified_gmt":"2020-05-15T23:32:02","slug":"disciplina-e-habitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/disciplina-e-habitos\/","title":{"rendered":"Disciplina e h\u00e1bitos"},"content":{"rendered":"<p>A disciplina do distanciamento social tem sido reconhecida, especialmente por autoridades de sa\u00fade, como terap\u00eautica indispens\u00e1vel para o enfrentamento da pandemia da covid-19. Esse isolamento, al\u00e9m das considera\u00e7\u00f5es sobre a perspectiva da sa\u00fade ou mesmo de seus desdobramentos econ\u00f4micos, inspira refletir sobre o papel da dimens\u00e3o disciplinar no sustento e na promo\u00e7\u00e3o da vida. Cada indiv\u00edduo, com suas inser\u00e7\u00f5es nas redes de rela\u00e7\u00e3o humana, desenha fluxos do tecido social e cultural a partir de h\u00e1bitos, ajudando a configurar cen\u00e1rios sociopol\u00edticos, religiosos e tantos outros. As a\u00e7\u00f5es s\u00e3o alimentadas por h\u00e1bitos que, para serem qualificados, substitu\u00eddos ou renovados, dependem visceralmente da disciplina.<\/p>\n<p>Disciplina remete a aprendizagens. Aqueles que resistem ao exerc\u00edcio da disciplina podem estar motivados por entendimentos parciais ou equivocados. Muitos consideram uma vida disciplinada semelhante a uma \u201ccamisa de for\u00e7a\u201d ou limita\u00e7\u00e3o indevida da pr\u00f3pria liberdade. \u00c9 preciso reconhecer a disciplina de modo diferente, entendendo a sua rela\u00e7\u00e3o com a capacidade para aprender. A pr\u00f3pria origem latina da palavra reporta ao sentido de aprendizagem. Torna-se importante retomar uma considera\u00e7\u00e3o que pode gerar inc\u00f4modo ou parecer ingenuidade: todos s\u00e3o, o tempo todo, aprendizes, at\u00e9 mesmo quando h\u00e1 dom\u00ednio sobre conte\u00fados e t\u00e9cnicas, experi\u00eancias e saberes.&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse horizonte, \u00e9 equivocado argumentar que n\u00e3o se pode ou n\u00e3o se deve mudar porque \u201csempre foi assim\u201d, justificando a perman\u00eancia do que pode e deve ser transformado, melhorado. Tamb\u00e9m \u00e9 sinal de ingenuidade e de fracasso n\u00e3o se deixar interpelar pelas renova\u00e7\u00f5es que \u201cpedem passagem\u201d, exigindo aberturas, sobretudo em tempos cr\u00edticos, que imp\u00f5em desafios a todos. Etapas da hist\u00f3ria que apresentam os altos pre\u00e7os a se pagar, com sacrif\u00edcio de toda natureza, inclusive de vidas humanas, em raz\u00e3o de h\u00e1bitos e pr\u00e1ticas que produzem diferentes esgotamentos e adoecimentos em todos os setores da sociedade.<\/p>\n<p>A considera\u00e7\u00e3o s\u00e9ria e respons\u00e1vel dessa pandemia do novo coronav\u00edrus, com seus desdobramentos, remete a sociedade a um processo de reavalia\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos e pr\u00e1ticas, o que exige disciplina. A pandemia amea\u00e7a especialmente a vida dos mais pobres, mas n\u00e3o poupa ningu\u00e9m, inclusive os que se acham protegidos em suas redomas caras. \u00c9 uma exig\u00eancia, disciplinadamente, adotar novos h\u00e1bitos que estanquem esgotamentos &#8211; ambientais, sociais, pol\u00edticos e at\u00e9 religiosos, detentores das causas evidentes e invis\u00edveis da produ\u00e7\u00e3o desta e de outras pandemias. Ora, uma pandemia \u00e9 resultado de indisciplinas na esfera moral, desdobradas em pr\u00e1ticas autodestrutivas, em entendimentos equivocados ou limitados pela mesquinhez. E as condutas mesquinhas enra\u00edzam-se nas idolatrias, como a do dinheiro, em mediocridades socioculturais, pol\u00edtico-religiosas, dentre outras.<\/p>\n<p>Constata-se, assim, que a humanidade est\u00e1 desafiada a buscar um novo rumo &#8211; o caminho certo. &nbsp;Contribui para seguir na dire\u00e7\u00e3o adequada retomar a abordagem educativa do que \u00e9 pr\u00f3prio da pedagogia da disciplina \u2013 fundamento para a promo\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos e pr\u00e1ticas diferentes, adequados \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um futuro melhor. Resist\u00eancias \u00e0 renova\u00e7\u00e3o j\u00e1 expressam sinal de irracionalidades. Curiosa \u00e9 a natural pergunta sobre quando ser\u00e1 a retomada da \u201cnormalidade\u201d. O consenso diz que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel o regresso daquela realidade que antecedeu a pandemia, pois se trata de \u201cnormalidade\u201d que leva a adoecimentos, sempre com o risco de surgir outro v\u00edrus amea\u00e7ador. Fala-se, por isso mesmo, de uma \u201cnova normalidade\u201d. Nessa realidade diferente, a vida precisa ser vivida em novos par\u00e2metros, inegoci\u00e1veis, orientados a partir do respeito \u00e0 dignidade humana.<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o desse caminho, continuar\u00e1 a prevalecer uma indiferen\u00e7a brutal, perpetuando feminic\u00eddios, exterm\u00ednios de moradores de rua, de ind\u00edgenas e de pobres &#8211; muitos privados de direitos fundamentais a todos. Vergonhosamente dizimados pelas pandemias da fome, da viol\u00eancia e da falta de condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para preservar a sa\u00fade. Um novo ciclo civilizat\u00f3rio \u00e9 comprometido tamb\u00e9m pela irracionalidade advinda da falta de intui\u00e7\u00e3o e inventividade. O que fica s\u00e3o os espet\u00e1culos das invencionices comprobat\u00f3rias de incompet\u00eancias e de ilus\u00f5es alimentadas por polariza\u00e7\u00f5es e fundamentalismos.<\/p>\n<p>A disciplina \u00e9 exig\u00eancia para se conquistar novos h\u00e1bitos que desafiam o tecido cultural, pol\u00edtico e religioso a ter uma nova mat\u00e9ria prima, de qualidade, para sustentar o sonho da solidariedade que precisa se tornar realidade. A nova p\u00e1gina que precisa ser escrita na hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o, pela supera\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o amargo que se est\u00e1 pagando, indica a necessidade da participa\u00e7\u00e3o de todos na constru\u00e7\u00e3o de um novo tempo. Do setor pol\u00edtico aos lares, dos espa\u00e7os p\u00fablicos aos privados, das universidades \u00e0s igrejas, do comum ao extraordin\u00e1rio, todos s\u00e3o desafiados a intuir novos h\u00e1bitos e din\u00e2micas. Exercitar a nobreza da disciplina pode contribuir para efetivar um renovado jeito de ser e de conviver na sociedade.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte (MG)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A disciplina do distanciamento social tem sido reconhecida, especialmente por autoridades de sa\u00fade, como terap\u00eautica indispens\u00e1vel para o enfrentamento da pandemia da covid-19. Esse isolamento, al\u00e9m das considera\u00e7\u00f5es sobre a perspectiva da sa\u00fade ou mesmo de seus desdobramentos econ\u00f4micos, inspira refletir sobre o papel da dimens\u00e3o disciplinar no sustento e na promo\u00e7\u00e3o da vida. 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