{"id":67313,"date":"2019-11-15T12:36:36","date_gmt":"2019-11-15T15:36:36","guid":{"rendered":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=67313"},"modified":"2019-11-15T12:36:36","modified_gmt":"2019-11-15T15:36:36","slug":"triunfo-de-nulidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/triunfo-de-nulidades\/","title":{"rendered":"Triunfo de nulidades?"},"content":{"rendered":"<p>A dolorosa vis\u00e3o de cen\u00e1rios desfigurados e perversos na sociedade contempor\u00e2nea faz brotar forte indaga\u00e7\u00e3o: h\u00e1 triunfo das nulidades? Pode parecer uma perspectiva dram\u00e1tica ou pessimista, mas \u00e9 real. N\u00e3o \u00e9 exagero constatar que esse triunfo, lamentavelmente, est\u00e1 em curso. Considerar, cotidianamente, os desatinos que amea\u00e7am a humanidade e a conduzem, com velocidade, rumo a precip\u00edcios, \u00e9 uma urg\u00eancia. Afinal, muitas vezes n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel retornar do fundo do abismo, ou \u00e9 necess\u00e1rio longo prazo para a recupera\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, as urg\u00eancias humanit\u00e1rias e civilizat\u00f3rias exigem respostas imediatas. N\u00e3o se pode mais suportar pesos, sofrimentos e descompassos que atingem frontalmente o bem comum e ferem a humanidade. Por isso mesmo, \u00e9 preciso mais cuidado e responsabilidade para mudar essa realidade, o que exige dos cidad\u00e3os e cidad\u00e3s a remodela\u00e7\u00e3o de atitudes &#8211; de h\u00e1bitos dom\u00e9sticos at\u00e9 decis\u00f5es em inst\u00e2ncias que impactam os muitos processos da vida.<\/p>\n<p>V\u00ea-se o crescimento da indiferen\u00e7a, acompanhado de descuido proposital e perverso na viv\u00eancia de valores, no respeito a princ\u00edpios, o que torna as pessoas potenciais avalanches demolidoras, umas passando por cima das outras. O resultado: a devasta\u00e7\u00e3o moral, f\u00edsica e humanit\u00e1ria com altos pre\u00e7os a pagar. Diante disso, \u00e9 cada vez mais atual a express\u00e3o iluminada de Rui Barbosa, ainda no in\u00edcio do s\u00e9culo passado, com for\u00e7a de repreens\u00e3o, ao dizer que se tinha vergonha de ser honesto, de tanto ver triunfar as nulidades, prosperar a desonra, o crescimento da injusti\u00e7a, com o agigantar-se dos poderes nas m\u00e3os dos maus. Assombra, hoje, a naturalidade com que o mal \u00e9 aceito, destruindo, sorrateiramente, o indispens\u00e1vel humanismo e a envergadura moral necess\u00e1ria ao exerc\u00edcio de responsabilidades.<\/p>\n<p>Todos os processos da vida pessoal, familiar, profissional, religiosa e cidad\u00e3 est\u00e3o contaminados pela banaliza\u00e7\u00e3o do mal. Para al\u00e9m da abordagem filos\u00f3fica &#8211; se o mal \u00e9 dotado de um ser &#8211; considera-se que o pensamento moderno questiona a sua exist\u00eancia. Tamb\u00e9m por isso, a humanidade paga na pr\u00f3pria pele os seus efeitos desastrosos. O mal faz tro\u00e7as da racionalidade humana que, sozinha, n\u00e3o consegue enfrent\u00e1-lo e reverter quadros, mudar situa\u00e7\u00f5es e requalificar indiv\u00edduos. &nbsp;Mais que um problema, o mal \u00e9 um mist\u00e9rio a ser afrontado, com humildade e aten\u00e7\u00e3o, para, especialmente, o ser humano n\u00e3o se tornar agente da maldade e seguir na dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de cada pessoa: a dignidade maior de ser filho e filha de Deus &#8211; que \u00e9 bom, porque \u00e9 amor.<\/p>\n<p>As diferentes corrup\u00e7\u00f5es que enlameiam a sociedade t\u00eam suas ra\u00edzes no mal. Sua perigosa banaliza\u00e7\u00e3o vai ganhando, avassaladoramente, a reg\u00eancia da vida. Com isso, o mal passa a definir as din\u00e2micas da sociedade, com for\u00e7a de convencimento, para fazer, por exemplo, que se considere verdade o que \u00e9 mentira. Narrativas do Evangelho a respeito da tenta\u00e7\u00e3o sofrida por Jesus no deserto sublinham a fragilidade da condi\u00e7\u00e3o humana e apontam o caminho experiencial de sua supera\u00e7\u00e3o. Essa perspectiva merece aten\u00e7\u00e3o de toda sociedade para, seguindo o exemplo de Jesus, se debelar o crescimento assustador do poderio do mal. Ao ser desconsiderado, o mal se apresenta como \u00fanica alternativa, desvirtuando a verdade e o amor, comprometendo a paz social e a justi\u00e7a. A for\u00e7a do mal \u00e9 t\u00e3o incidente que perverte at\u00e9 mesmo religiosos, distanciando-os da conduta esperada dos que professam a f\u00e9. Quem cr\u00ea, autenticamente, pauta a pr\u00f3pria vida, seus atos e momentos na verdade e no amor, desdobrados em solidariedade fraterna e em testemunho de uma realidade que ultrapassa o tempo, o espa\u00e7o e as ideias &#8211; o Reino de Deus. Vive, neste tempo, o sonho e a luta para efetivar as l\u00f3gicas do bem.<\/p>\n<p>Por onde caminhar\u00e1, com a banaliza\u00e7\u00e3o do mal, a defesa da justi\u00e7a? Os argumentos advocat\u00edcios passam a ser tarefa irracional, com agressividade e at\u00e9 sem o m\u00ednimo senso de civilidade. Permite-se defender o indefens\u00e1vel, fazer valer a mentira como verdade. A for\u00e7a do mal seduz os operadores da sociedade, nos seus diversos campos de a\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o. Faz valer a l\u00f3gica da gan\u00e2ncia e do lucro, com justificativas que comprovam o poder do mal. As institui\u00e7\u00f5es ficam \u00e0 merc\u00ea de interesses esp\u00farios, seus atores e respons\u00e1veis, incapacitados.<\/p>\n<p>O tecido human\u00edstico, carcomido pelo mal, fortalece l\u00f3gicas que negam a preciosidade do dom da vida. E a cidadania sofre, pois se v\u00ea privada da qualidade indispens\u00e1vel de urbanidade. Cada um se reveste de uma condi\u00e7\u00e3o voraz e, permitindo-se passar por cima de tudo e de todos, provoca o caos social e pol\u00edtico. A sociedade est\u00e1 desafiada a combater a forma como tem assimilado o mal, a lutar por investimentos \u00e9tico-morais em princ\u00edpios e valores, por pr\u00e1ticas que amansem o cora\u00e7\u00e3o humano. Assim, ser\u00e1 alcan\u00e7ada a compet\u00eancia exigida neste momento da hist\u00f3ria, \u00fanico caminho para se conter, com urg\u00eancia, o triunfo de nulidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/p>\n<p>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte (MG)<\/p>\n<p>Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)<strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A dolorosa vis\u00e3o de cen\u00e1rios desfigurados e perversos na sociedade contempor\u00e2nea faz brotar forte indaga\u00e7\u00e3o: h\u00e1 triunfo das nulidades? Pode parecer uma perspectiva dram\u00e1tica ou pessimista, mas \u00e9 real. N\u00e3o \u00e9 exagero constatar que esse triunfo, lamentavelmente, est\u00e1 em curso. 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