{"id":65870,"date":"2019-08-10T10:42:55","date_gmt":"2019-08-10T13:42:55","guid":{"rendered":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=65870"},"modified":"2019-08-10T10:42:55","modified_gmt":"2019-08-10T13:42:55","slug":"presta-contas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/presta-contas\/","title":{"rendered":"Presta contas"},"content":{"rendered":"<p>A negocia\u00e7\u00e3o de valores e princ\u00edpios indica desgastes e esgar\u00e7amentos na consci\u00eancia moral com incid\u00eancias na conduta, tornando as pessoas incapazes de cumprir a sua obriga\u00e7\u00e3o, particularmente, na administra\u00e7\u00e3o daquilo que deve promover o bem de todos. Se ningu\u00e9m \u00e9 dispensado do uso honesto e equilibrado dos pr\u00f3prios bens, legitimamente adquiridos, a exig\u00eancia \u00e9 ainda maior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fidelidade, \u00e0 honestidade e ao equil\u00edbrio quando se considera a responsabilidade de administrar o bem comum e de exercer a solidariedade, especialmente quando se trata dos mais pobres. O adoecimento da consci\u00eancia e a consequente desfigura\u00e7\u00e3o da conduta moral, al\u00e9m dos desequil\u00edbrios ps\u00edquicos, encontram no dinheiro a for\u00e7a sedutora que entorpece sentimentos, obscurece a vis\u00e3o, exerce dom\u00ednio compulsivo. Compreende-se, assim, o dito de Jesus que, em interlocu\u00e7\u00e3o com os fariseus, retratados nos evangelhos como \u201camigos do dinheiro\u201d, apontava: n\u00e3o se pode servir a Deus e ao dinheiro.<\/p>\n<p>O dinheiro tem for\u00e7a para desencadear compuls\u00f5es e exercer dom\u00ednios t\u00e3o ou mais esmagadores que os desequil\u00edbrios advindos da esfera afetivo-sexual. Agrega elementos que promovem a sua idolatria, dentre as mais evidentes, a insaci\u00e1vel sede de poder, que alimenta a patologia da autoafirma\u00e7\u00e3o. Na contram\u00e3o desse dom\u00ednio do dinheiro est\u00e1 o compromisso com a ado\u00e7\u00e3o de uma conduta honesta. Desafio existencial de cada pessoa, emoldurado pelo cultivo permanente da compet\u00eancia humana de imprimir ao viver um sentido espiritual que ultrapasse dimens\u00f5es estreitadas pelas puls\u00f5es, compreendendo a vida como dom.&nbsp; Sem o investimento na moralidade, s\u00e3o inevit\u00e1veis os fracassos individuais e os pesados preju\u00edzos para a sociedade.<\/p>\n<p>Aqui, agora, em quest\u00e3o, est\u00e1 a idolatria do dinheiro. Patol\u00f3gica, pois trata-se da rela\u00e7\u00e3o estabelecida com o dinheiro quando n\u00e3o se desvencilha de seu dom\u00ednio, aceitando-o como for\u00e7a dominadora. A gan\u00e2ncia tem tamb\u00e9m na sua raiz uma crise antropol\u00f3gica que \u00e9 profunda e impossibilita enxergar a primazia do ser humano e a sua dimens\u00e3o sagrada. A idolatria do dinheiro tem for\u00e7a para afetar qualquer indiv\u00edduo, de modo doentio, independentemente de sua condi\u00e7\u00e3o social, intelectual, cultural ou religiosa. &nbsp;No \u00e2mbito religioso, \u00e9 uma pervers\u00e3o demolidora de propor\u00e7\u00f5es devastadoras em se considerando que a autenticidade religiosa n\u00e3o pode abrir m\u00e3o de um d\u00e9cimo de cent\u00edmetro do desapego. Desconsiderado, o desapego d\u00e1 lugar ao seu reverso: a falsidade, disparate de um discurso de pobreza e sobre os pobres assentado na cobi\u00e7a pelo dinheiro, por ajunt\u00e1-lo muito, por usufruir descompassadamente daquilo que ele pode comprar, pela via ardilosa de burlar esquemas, entortar ferramentas de controles, ou n\u00e3o us\u00e1-las, para garantir a promo\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o dos absurdos da idolatria do dinheiro. &nbsp;A seguran\u00e7a em Deus &#8211; cerne da religiosidade aut\u00eantica e exig\u00eancia inegoci\u00e1vel da f\u00e9 &#8211; passa a ser substitu\u00edda pelo dinheiro, cegamente engajando seus adoradores em acelerados processos de desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O dinheiro passa a criar novos \u00eddolos. Ultrapassa, em dimens\u00f5es de gal\u00e1xia, o seu aut\u00eantico sentido: viabilizar rela\u00e7\u00f5es de compra e venda, suprimento de bens, necessidades e produ\u00e7\u00f5es. Nasce, pela idolatria do dinheiro, um complexo fetichismo que alimenta a hegemonia de uma economia sem rosto, que contemporiza, vergonhosamente, os cen\u00e1rios de mis\u00e9ria, exclus\u00e3o e, sobretudo, admite uma honestidade lesada. &nbsp;A crise mundial e os descompassos individuais, consequ\u00eancias dessa idolatria, apontam a urgente necessidade de uma orienta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica. O ser humano n\u00e3o pode ser reduzido \u00e0s suas necessidades de consumo. Crescem, tamb\u00e9m, as exig\u00eancias de sistemas inteligentes e eficazes de controladoria que, por meio de ferramentas, sejam capazes de barrar os desequil\u00edbrios morais, ps\u00edquicos e afetivos de indiv\u00edduos orientados por suas patologias, submersos na idolatria do dinheiro.<\/p>\n<p>A ambi\u00e7\u00e3o do ter e do poder n\u00e3o conhece limites. Promove a rejei\u00e7\u00e3o da \u00e9tica e a recusa de Deus. H\u00e1 uma relativiza\u00e7\u00e3o provocada pelo dinheiro e pelo poder que desfigura a consci\u00eancia moral e tamb\u00e9m religiosa. Nesse horizonte, as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o permanentemente desafiadas a redobrar sistemas de controle, a se amparar em legisla\u00e7\u00f5es balizadoras e a cuidar dos seus pares, com investimentos em forma\u00e7\u00e3o, que os prepare para resistir a essa avalanche alimentada pelo consumismo e pela perda do senso de justi\u00e7a, bondade e honestidade. Entre as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o as igrejas, penalizadas por essas patologias que encontram viveiros em seus membros, o que exige a\u00e7\u00f5es corretivas urgentes.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica do Evangelho de Jesus \u00e9 o rem\u00e9dio que cura. Precisa-se considerar seriamente a indica\u00e7\u00e3o do ap\u00f3stolo Paulo: o dinheiro \u00e9 a raiz de todos os males. Particularmente, urge-se a aprendizagem do princ\u00edpio que baliza a honestidade, apontando para limites que n\u00e3o podem ser ultrapassados: a certeza de que o melhor \u00e9 ser sujeito de credibilidade. O bem se torna abundante para todos quando se reconhece que, no fechamento de ciclos, e num ju\u00edzo \u00faltimo, se ouvir\u00e1 a exig\u00eancia: presta contas. Vale a pena ser honesto, independentemente dos desafios, exercendo o desapego que tempera o equil\u00edbrio e produz resist\u00eancia ao dom\u00ednio da corrup\u00e7\u00e3o. Vit\u00f3ria \u00e9 estar tranquilo quando se ouvir: presta contas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/p>\n<p>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte (MG)<\/p>\n<p>Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A negocia\u00e7\u00e3o de valores e princ\u00edpios indica desgastes e esgar\u00e7amentos na consci\u00eancia moral com incid\u00eancias na conduta, tornando as pessoas incapazes de cumprir a sua obriga\u00e7\u00e3o, particularmente, na administra\u00e7\u00e3o daquilo que deve promover o bem de todos. 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