{"id":42864,"date":"2017-11-10T00:48:35","date_gmt":"2017-11-10T03:48:35","guid":{"rendered":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=42864"},"modified":"2017-11-09T21:48:55","modified_gmt":"2017-11-10T00:48:55","slug":"resgatar-a-civilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/resgatar-a-civilidade\/","title":{"rendered":"Resgatar a civilidade"},"content":{"rendered":"<p>No passado era muito comum ouvir elogios destinados \u00e0s pessoas reconhecidamente civilizadas, qualidade que define homens e mulheres comprometidos com a conduta ilibada e honesta, dedicados ao exerc\u00edcio da cidadania de forma admir\u00e1vel. Importante sublinhar: ser civilizado n\u00e3o \u00e9 apenas dominar o conjunto de formalidades e etiquetas exigidas em certos ambientes. Trata-se de orientar a pr\u00f3pria conduta a partir de par\u00e2metros humanit\u00e1rios cultivados na consci\u00eancia humana. E \u00e9 exatamente esse sentido de civilidade que est\u00e1 faltando na sociedade contempor\u00e2nea. Assim, a cidadania fica comprometida, pois h\u00e1 car\u00eancia de um s\u00f3lido embasamento antropol\u00f3gico para o exerc\u00edcio da civilidade. Falta clareza a respeito da origem, destino e miss\u00e3o de todo ser humano, da responsabilidade de cada um na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa e fraterna.<\/p>\n<p>Os acelerados avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos n\u00e3o s\u00e3o acompanhados pelo cultivo da civilidade. As muitas oportunidades para interc\u00e2mbios, partilhas de informa\u00e7\u00f5es e a beleza de poder se comunicar com pessoas diferentes, em todo o mundo, coabitam com equivocados modos de agir do ser humano, que se mostra descomprometido com a tarefa de compor e integrar equipes, de formar la\u00e7os para trilhar um itiner\u00e1rio em busca do bem comum.<\/p>\n<p>A perda de civilidade alimenta a delinqu\u00eancia que toma conta das muitas din\u00e2micas da sociedade contempor\u00e2nea, manifestando-se de diferentes maneiras e intensidades. Contempla a loucura dos atiradores que avan\u00e7am sobre multid\u00f5es, os atentados terroristas, a incontrol\u00e1vel viol\u00eancia dos contextos urbanos e, tamb\u00e9m, os diferentes \u201cassaltos\u201d ao er\u00e1rio, praticados por quem busca a satisfa\u00e7\u00e3o doentia de aumentar o patrim\u00f4nio com aquilo que pertence ao povo. Um tipo de conduta que torna ainda mais distante o sonho de alcan\u00e7ar a civiliza\u00e7\u00e3o do amor. Aspira\u00e7\u00e3o que, para se tornar realidade, depende da efic\u00e1cia de processos educativos fundamentados em princ\u00edpios\u00a0 antropol\u00f3gicos capazes de possibilitar o reconhecimento do verdadeiro sentido da vida no contexto contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Se a vida perde sentido, a liberdade \u00e9 exercida para alimentar delinqu\u00eancias. Prevalece o \u201cvale tudo\u201d, com as conveni\u00eancias ego\u00edstas que desconsideram a exist\u00eancia das outras pessoas, particularmente dos mais pobres, indefesos e inocentes. Nesse cen\u00e1rio, perde-se a no\u00e7\u00e3o de p\u00e1tria e de pertencimento. Muitos passam a considerar retr\u00f3grados os princ\u00edpios e valores que sustentam a civilidade. Acham-se no direito de passar por cima de tudo para alcan\u00e7ar, mesquinhamente, certos interesses. Uma postura que gera incompet\u00eancia para a vida em coletividade, perdendo-se muitas oportunidades para a qualifica\u00e7\u00e3o da cidadania. A pr\u00f3pria liberdade torna-se amea\u00e7ada, pois no &#8220;vale tudo&#8221;, a premissa do respeito m\u00fatuo \u00e9 desconsiderada.\u00a0 Perde-se a seguran\u00e7a de ir e vir, a capacidade para se relacionar harmonicamente com o semelhante e, particularmente, o compromisso de dedicar-se \u00e0 solidariedade.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno preocupante da perda do sentido de civilidade gera ainda a incapacidade para ouvir cr\u00edticas, ou mesmo elabor\u00e1-las com o objetivo de promover mudan\u00e7as que signifiquem aprimoramento. Aos poucos, convive-se com a superficialidade de uma sociedade que ocupa territ\u00f3rio de riquezas extraordin\u00e1rias, mas n\u00e3o sabe o que fazer para promover o bem de todos. A incivilidade na sociedade brasileira atrasa novos passos, a sa\u00edda das crises. Mata alegrias e esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 preciso recuperar\u00a0a civilidade aprendida nos lares e cultivada nas muitas escolas da vida. Sem civilidade, n\u00e3o h\u00e1 valoriza\u00e7\u00e3o do amor como norma suprema na vida social, nos \u00e2mbitos pol\u00edtico, econ\u00f4mico e cultural e nem os gestos que levam em considera\u00e7\u00e3o o respeito \u00e0s diferen\u00e7as, \u00e0s pessoas, aos momentos e aos ritos. O esquecimento da civilidade permite as discrimina\u00e7\u00f5es e a confirma\u00e7\u00e3o de elitismos que envenenam a sociedade. \u00c9 preciso resgatar a civilidade,\u00a0seu conjunto de normas e pr\u00e1ticas, que contribui para modular consci\u00eancias, o caminho para qualificar as rela\u00e7\u00f5es humanas, viver como autodoa\u00e7\u00e3o em benef\u00edcio da sociedade, aut\u00eanticos servidores e cidad\u00e3os comprometidos.\u00a0\u00c9 preciso trabalhar muito, dos pequenos gestos \u00e0 nobreza de grandes atos, para se resgatar a civilidade.<\/p>\n<p>Autor: Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/p>\n<p>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No passado era muito comum ouvir elogios destinados \u00e0s pessoas reconhecidamente civilizadas, qualidade que define homens e mulheres comprometidos com a conduta ilibada e honesta, dedicados ao exerc\u00edcio da cidadania de forma admir\u00e1vel. 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