{"id":29785,"date":"2017-06-02T16:04:44","date_gmt":"2017-06-02T19:04:44","guid":{"rendered":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=29785"},"modified":"2017-06-02T16:07:04","modified_gmt":"2017-06-02T19:07:04","slug":"cidadania-e-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/cidadania-e-poder\/","title":{"rendered":"Cidadania e poder"},"content":{"rendered":"<p>O apre\u00e7o pela cidadania define os rumos da sociedade, exigindo o compromisso com os gestos, as escolhas e, particularmente, com a honra \u00e0 palavra dada. S\u00e3o atitudes que se alicer\u00e7am na verdade e no gosto pela transpar\u00eancia. Sem o sentido de cidadania, os funcionamentos da sociedade ficam comprometidos. \u00a0A justi\u00e7a e a solidariedade n\u00e3o s\u00e3o alcan\u00e7adas. Por isso, s\u00e3o necess\u00e1rios investimentos na educa\u00e7\u00e3o e na ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas cotidianas que emoldurem a civilidade, condi\u00e7\u00e3o para que din\u00e2micas mais racionais ordenem a vida social. A hist\u00f3ria do Brasil, com seus ilustres personagens, permite que se construa uma na\u00e7\u00e3o mais justa. Mas, antes, \u00e9 preciso encontrar os mecanismos capazes de regenerar as muitas feridas da cidadania brasileira, agredida pela indiferen\u00e7a, privil\u00e9gios e falta de altru\u00edsmo que impedem os l\u00edderes e os representantes do povo de enxergar al\u00e9m dos pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>Em quest\u00e3o est\u00e1 o entendimento sobre o que \u00e9 exercer o poder, pois na sociedade brasileira, o seu exerc\u00edcio se confronta com o caos, criado pelas condutas conden\u00e1veis. \u00a0O poder n\u00e3o pode ser regido apenas pela economia de mercado com seus equ\u00edvocos, afetando vidas de forma inconsequente. Sua reg\u00eancia deve ocorrer a partir da pol\u00edtica, compreendida como a pr\u00e1tica mais adequada do exerc\u00edcio da cidadania. O ap\u00f3stolo Paulo j\u00e1 advertia que o dinheiro \u00e9 a raiz de todos os males. Ao tomar o lugar da cidadania no exerc\u00edcio do poder, a economia arquiteta mecanismos que facilmente podem se distanciar da justi\u00e7a e da solidariedade.\u00a0 A dimens\u00e3o econ\u00f4mica \u00e9 importante na configura\u00e7\u00e3o social, mas as consequ\u00eancias s\u00e3o s\u00e9rias quando o poder deixa de ser exercido a partir da cidadania para tornar-se submisso ao mercado. Os representantes do povo passam a obedecer e a reger-se por interesses que est\u00e3o, quase sempre, desvinculados dos anseios da popula\u00e7\u00e3o. Afinal, quem tem dinheiro passa a ser o dono do poder.<\/p>\n<p>Urge, ent\u00e3o, investir na cidadania para que seu tecido resista \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o do consumismo e da gan\u00e2ncia, que determinam as decis\u00f5es pol\u00edticas. Desconsiderar essa urg\u00eancia \u00e9 manter pr\u00e1ticas distantes dos par\u00e2metros humanit\u00e1rios balizadores da justi\u00e7a e da paz. Interesses particulares continuar\u00e3o a se sobrepor aos anseios cidad\u00e3os, consolidando a supremacia do lucro e do mercado sobre o bem comum. Cultiva-se, assim, a incapacidade de priorizar as necessidades dos mais pobres, o que faz crescer a discrimina\u00e7\u00e3o e a marginalidade.\u00a0 Reconstruir o pa\u00eds exige, pois, que a comunidade pol\u00edtica esteja a servi\u00e7o do povo e n\u00e3o do mercado. Os pol\u00edticos precisam se reconhecer como parte da sociedade, sem tra\u00ed-la pela submiss\u00e3o ao dinheiro.<\/p>\n<p>Isso significa, no conjunto do pluralismo social, ser fiel aos princ\u00edpios da solidariedade e da justi\u00e7a. A sociedade tem primazia, e esse deve ser o horizonte para o compromisso de uma genu\u00edna cidadania. O servi\u00e7o aut\u00eantico que a comunidade pol\u00edtica \u00e9 chamada a prestar \u00e0 sociedade n\u00e3o pode se afastar jamais do compromisso com o desenvolvimento integral e solid\u00e1rio. As consequ\u00eancias desse distanciamento resultam em preju\u00edzos irrevers\u00edveis &#8211; a anomia, a viol\u00eancia e as vergonhosas desigualdades.<\/p>\n<p>Para transformar o atual contexto, precisa florescer, em cada pessoa, a consci\u00eancia da pr\u00f3pria responsabilidade nos exerc\u00edcios das tarefas profissionais, pol\u00edticas e de coopera\u00e7\u00e3o. Para isso, oportuno \u00e9 se valer das pr\u00f3prias ra\u00edzes, de modo reverente, reconhecendo o arcabou\u00e7o cultural da pr\u00f3pria hist\u00f3ria e a trajet\u00f3ria dos antepassados. Esse patrim\u00f4nio deve ser vetor de desenvolvimento.<\/p>\n<p>A mediocridade atual e os conden\u00e1veis interesses n\u00e3o podem apequenar o exerc\u00edcio da cidadania, que lamentavelmente se revela, por exemplo, no excesso de burocratiza\u00e7\u00e3o que atrasa processos, manifestando certo prazer patol\u00f3gico de alguns que precisam mostrar poder. \u00a0Atitudes que criam uma gera\u00e7\u00e3o incapaz de deixar legados e at\u00e9 corroem o que j\u00e1 se conquistou. Por isso, a necessidade de um grande trabalho educativo e cultural que impulsione transforma\u00e7\u00f5es na vida cidad\u00e3. E o passo primeiro \u00e9 n\u00e3o delegar poder absoluto ao mercado. A economia deve estar sob dom\u00ednio das necessidades humanas, o que inclui equil\u00edbrio e vida ordenada nos par\u00e2metros da cidadania. Assim, torna-se poss\u00edvel ampliar o alcance da compreens\u00e3o de que \u00e9 nobre ser cidad\u00e3o. Nobreza por comprometer-se com o bem comum, priorizar o respeito e a defesa da dignidade humana, em todas as circunst\u00e2ncias. A sociedade ganha novo rumo quando a cidadania regula o exerc\u00edcio do poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Autor:Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/p>\n<p>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O apre\u00e7o pela cidadania define os rumos da sociedade, exigindo o compromisso com os gestos, as escolhas e, particularmente, com a honra \u00e0 palavra dada. S\u00e3o atitudes que se alicer\u00e7am na verdade e no gosto pela transpar\u00eancia. 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