{"id":15354,"date":"2017-01-01T10:50:13","date_gmt":"2017-01-01T10:50:13","guid":{"rendered":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=15354"},"modified":"2017-01-01T10:53:15","modified_gmt":"2017-01-01T10:53:15","slug":"francisco-homilia-da-solenidade-de-santa-maria-mae-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalcatolico.net\/portal\/francisco-homilia-da-solenidade-de-santa-maria-mae-de-deus\/","title":{"rendered":"Francisco: homilia da Solenidade de Santa Maria, M\u00e3e de Deus"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Francisco celebrou esta manh\u00e3, 1 de Janeiro de 2017, \u00e0s 10 horas de Roma, na Bas\u00edlica de S. Pedro, repleta de fi\u00e9is e peregrinos vindos de diversos cantos da It\u00e1lia e do mundo, a Santa Missa por ocasi\u00e3o da solenidade de Santa Maria, M\u00e3e de Deus. Publicamos na \u00edntegra, a espl\u00eandida homilia pronunciada pelo Santo Padre:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abQuanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb (Lc 2, 19). Assim descreve Lucas a atitude com que Maria acolhe tudo aquilo que estava a viver naqueles dias. Longe de querer compreender ou dominar a situa\u00e7\u00e3o, Maria \u00e9 a mulher que sabe conservar, isto \u00e9, proteger, guardar no seu cora\u00e7\u00e3o a passagem de Deus na vida do seu povo. Aprendeu a sentir a pulsa\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o do seu Filho, ainda Ele estava no seu ventre, ensinando-Lhe a descobrir, durante toda a vida, o palpitar de Deus na hist\u00f3ria. Aprendeu a ser m\u00e3e e, nesta aprendizagem, proporcionou a Jesus a bela experi\u00eancia de saber-Se Filho. Em Maria, o Verbo eterno n\u00e3o s\u00f3 Se fez carne, mas aprendeu tamb\u00e9m a reconhecer a ternura maternal de Deus. Com Maria, o Deus-Menino aprendeu a ouvir os anseios, as ang\u00fastias, as alegrias e as esperan\u00e7as do povo da promessa. Com Ela, descobriu-Se a Si mesmo como Filho do santo povo fiel de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos Evangelhos, Maria aparece como mulher de poucas palavras, sem grandes discursos nem protagonismos, mas com um olhar atento que sabe guardar a vida e a miss\u00e3o do seu Filho e, consequentemente, de tudo o que Ele ama. Soube guardar os alvores da primeira comunidade crist\u00e3, aprendendo deste modo a ser m\u00e3e duma multid\u00e3o. Aproximou-Se das mais diversas situa\u00e7\u00f5es, para semear esperan\u00e7a. Acompanhou as cruzes, carregadas no sil\u00eancio do cora\u00e7\u00e3o dos seus filhos. Muitas devo\u00e7\u00f5es, muitos santu\u00e1rios e capelas nos lugares mais remotos, muitas imagens espalhadas pelas casas lembram-nos esta grande verdade. Maria deu-nos o calor materno, que nos envolve no meio das dificuldades; o calor materno que n\u00e3o deixa, nada e ningu\u00e9m, apagar no seio da Igreja a revolu\u00e7\u00e3o da ternura inaugurada pelo seu Filho. Onde h\u00e1 uma m\u00e3e, h\u00e1 ternura. E Maria, com a sua maternidade, mostra-nos que a humildade e a ternura n\u00e3o s\u00e3o virtudes dos fracos, mas dos fortes; ensina-nos que n\u00e3o h\u00e1 necessidade de maltratar os outros para sentir-se importante (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 288). E o santo povo fiel de Deus, desde sempre, A reconheceu e aclamou como a Santa M\u00e3e de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celebrar, no in\u00edcio de um novo ano, a maternidade de Maria como M\u00e3e de Deus e nossa m\u00e3e significa avivar uma certeza que nos h\u00e1 de acompanhar no decorrer dos dias: somos um povo com uma M\u00e3e, n\u00e3o somos \u00f3rf\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As m\u00e3es s\u00e3o o ant\u00eddoto mais forte contra as nossas tend\u00eancias individualistas e ego\u00edstas, contra os nossos isolamentos e apatias. Uma sociedade sem m\u00e3es seria n\u00e3o apenas uma sociedade fria, mas tamb\u00e9m uma sociedade que perdeu o cora\u00e7\u00e3o, que perdeu o \u00absabor de fam\u00edlia\u00bb. Uma sociedade sem m\u00e3es seria uma sociedade sem piedade, com lugar apenas para o c\u00e1lculo e a especula\u00e7\u00e3o. Com efeito as m\u00e3es, mesmo nos momentos piores, sabem testemunhar a ternura, a dedica\u00e7\u00e3o incondicional, a for\u00e7a da esperan\u00e7a. Aprendi muito com as m\u00e3es que, tendo os filhos na pris\u00e3o ou estendidos numa cama de hospital ou subjugados pela escravid\u00e3o da droga, esteja frio ou calor, fa\u00e7a chuva ou sol, n\u00e3o desistem e continuam a lutar para lhes dar o melhor; ou com as m\u00e3es que, nos campos de refugiados ou at\u00e9 no meio da guerra, conseguem abra\u00e7ar e sustentar, sem hesita\u00e7\u00e3o, o sofrimento dos seus filhos. M\u00e3es que d\u00e3o, literalmente, a vida para que nenhum dos filhos se perca. Onde estiver a m\u00e3e, h\u00e1 unidade, h\u00e1 sentido de perten\u00e7a: perten\u00e7a de filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7ar o ano lembrando a bondade de Deus no rosto materno de Maria, no rosto materno da Igreja, nos rostos das nossas m\u00e3es, protege-nos daquela doen\u00e7a corrosiva que \u00e9 a \u00aborfandade espiritual\u00bb: a orfandade que a alma vive quando se sente sem m\u00e3e e lhe falta a ternura de Deus; a orfandade que vivemos quando se apaga em n\u00f3s o sentido de perten\u00e7a a uma fam\u00edlia, a um povo, a uma terra, ao nosso Deus; a orfandade que se aninha no cora\u00e7\u00e3o narcisista que sabe olhar s\u00f3 para si mesmo e para os seus interesses, e cresce quando esquecemos que a vida foi um dom \u2013 dela somos devedores a outros \u2013 e somos convidados a partilh\u00e1-la nesta casa comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi esta orfandade autorefer\u00eancial que levou Caim a dizer: \u00abSou, porventura, guarda do meu irm\u00e3o?\u00bb (Gn 4, 9). Como se declarasse: ele n\u00e3o me pertence, n\u00e3o o reconhe\u00e7o. Tal atitude de orfandade espiritual \u00e9 um c\u00e2ncer que silenciosamente enfraquece e degrada a alma. E assim, pouco a pouco, nos vamos degradando, j\u00e1 que ningu\u00e9m nos pertence e n\u00f3s n\u00e3o pertencemos a ningu\u00e9m: degrado a terra, porque n\u00e3o me pertence; degrado os outros, porque n\u00e3o me pertencem; degrado a Deus, porque n\u00e3o Lhe perten\u00e7o; e, por fim, acabamos por nos degradar a n\u00f3s pr\u00f3prios, porque esquecemos quem somos e o \u00abnome\u00bb divino que temos. A perda dos la\u00e7os que nos unem, t\u00edpica da nossa cultura fragmentada e desunida, faz com que cres\u00e7a esta sensa\u00e7\u00e3o de orfandade e, por conseguinte, de grande vazio e solid\u00e3o. A falta de contacto f\u00edsico (n\u00e3o o virtual) vai cauterizando os nossos cora\u00e7\u00f5es (cf. Carta enc. Laudato si\u2019, 49), fazendo-lhes perder a capacidade da ternura e da maravilha, da piedade e da compaix\u00e3o. A orfandade espiritual faz-nos perder a mem\u00f3ria do que significa ser filhos, ser netos, ser pais, ser av\u00f3s, ser amigos, ser crentes; faz-nos perder a mem\u00f3ria do valor da divers\u00e3o, do canto, do riso, do repouso, da gratuidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celebrar a festa da Santa M\u00e3e de Deus faz despontar novamente no rosto o sorriso de nos sentirmos povo, de sentir que nos pertencemos; saber que as pessoas, somente dentro duma comunidade, duma fam\u00edlia, podem encontrar a \u00abatmosfera\u00bb, o \u00abcalor\u00bb que permite aprender a crescer humanamente, e n\u00e3o como meros objetos destinados a \u00abconsumir e ser consumidos\u00bb. Celebrar a festa da Santa M\u00e3e de Deus lembra-nos que n\u00e3o somos mercadoria de troca nem terminais receptores de informa\u00e7\u00e3o. Somos filhos, somos fam\u00edlia, somos povo de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celebrar a Santa M\u00e3e de Deus impele-nos a criar e cuidar espa\u00e7os comuns que nos d\u00eaem sentido de perten\u00e7a, de enraizamento, que nos fa\u00e7am sentir em casa dentro das nossas cidades, em comunidades que nos unam e sustentem (cf. ibid., 151).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus Cristo, no momento do dom maior que foi o da sua vida na cruz, nada quis reter para Si e, ao entregar a sua vida, entregou-nos tamb\u00e9m sua M\u00e3e. Disse a Maria: Eis o teu filho, eis os teus filhos. E n\u00f3s queremos acolh\u00ea-La nas nossas casas, nas nossas fam\u00edlias, nas nossas comunidades, nos nossos pa\u00edses. Queremos encontrar o seu olhar materno: aquele olhar que nos liberta da orfandade; aquele olhar que nos lembra que somos irm\u00e3os, isto \u00e9, que eu te perten\u00e7o, que tu me pertences, que somos da mesma carne; aquele olhar que nos ensina que devemos aprender a cuidar da vida da mesma maneira e com a mesma ternura com que Ela o fez, ou seja, semeando esperan\u00e7a, semeando perten\u00e7a, semeando fraternidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celebrar a Santa M\u00e3e de Deus lembra-nos que temos a M\u00e3e; n\u00e3o somos \u00f3rf\u00e3os, temos uma m\u00e3e. Professemos, juntos, esta verdade! Convido-vos a aclam\u00e1-La tr\u00eas vezes como fizeram os fi\u00e9is de \u00c9feso: Santa M\u00e3e de Deus, Santa M\u00e3e de Deus, Santa M\u00e3e de Deus. Com informa\u00e7\u00f5es e foto da R\u00e1dio Vaticano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa Francisco celebrou esta manh\u00e3, 1 de Janeiro de 2017, \u00e0s 10 horas de Roma, na Bas\u00edlica de S. Pedro, repleta de fi\u00e9is e peregrinos vindos de diversos cantos da It\u00e1lia e do mundo, a Santa Missa por ocasi\u00e3o da solenidade de Santa Maria, M\u00e3e de Deus. 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