“Correios!” Um grito reverberou em minha alma como uma verdade inesperada. Onde estava meu presente? Debaixo da cama, apenas o vazio. Do lado de fora, nenhum rastro ou vestígio que indicasse o paradeiro daquilo que esperei com ansiedade. Na ausência, instalou-se a dúvida e, com ela, o drama: terá sido meu presente extraviado ou, pior, entregue a outra pessoa?
Esse pequeno episódio, aparentemente trivial, revelou-se como um espelho da existência. O ato de esperar — e o consequente desengano — não é exclusivo do Natal, mas atravessa os séculos como uma condição inerente à humanidade. Esperamos reconhecimento, amor, sucesso, e, por vezes, o que recebemos é o silêncio de uma correspondência perdida.
Ao buscar as primeiras pistas, fui levado de volta aos dias da infância, quando os sonhos eram matéria-prima de conversas inocentes. Àquele amigo, confidenciei: “Quero ser grande.” Não sabia ainda que crescer exigia mais do que estatura física — era preciso nutrir a alma, encontrar alegria até nos desencantos e, sobretudo, fazer do ordinário algo extraordinário.
Outro ouvinte, menos indulgente, advertiu-me: “Para ser grande amanhã, é necessário ser pequeno hoje.” Palavras que, embora repletas de sabedoria, soavam como um eco das limitações que me impunham. Em vez de me encorajar, tornavam-se muros que tentavam conter meu ímpeto de transcender a mediocridade.
E, quando, enfim, afirmei com toda a força: “Quero ser eu mesmo,” o mundo reagiu com ceticismo. Valores familiares, histórias de virtudes e exemplos morais eram apresentados como alternativas, mas faltava-lhes a centelha que ilumina o caminho da autenticidade. Não me restava outra escolha senão seguir adiante, carregando comigo o desejo inabalável de viver conforme meu próprio roteiro.
O presente extraviado tornou-se metáfora de algo maior: a perda de identidade em meio à pressa e à confusão do mundo contemporâneo. Trocas de endereço, reais ou simbólicas, revelam como facilmente nos distanciamos de quem somos, enquanto tentamos corresponder às expectativas alheias.
Se meu presente foi desviado para outras mãos, faço votos de que encontre utilidade onde quer que esteja. No entanto, pergunto-me: será que não deixamos de ser nós mesmos ao longo da jornada por causa de endereços equivocados? Ser grande, ensinar a grandeza e viver a autenticidade são dons que, quando mal direcionados, tornam-se ausências profundas.
Quando já me resignava à falta, fui surpreendido. O grito de “Correios!” devolveu-me algo além do esperado. Não era apenas o presente físico, mas uma carta contendo uma reflexão cortante sobre a natureza da verdade e da falsidade:
“Permitir que a verdade seja tudo o que é — e nada do que não pode ser — é honrar a essência do real. Toda mentira, por mais habilmente construída, viola primeiro a consciência de quem a diz e, depois, o tecido da realidade. É sangrento o ato de mentir: um rio de discórdias que desemboca num oceano de incertezas.”
Essa mensagem ressoou como uma convocação à autenticidade. Se a falsidade gera caos, a verdade, ainda que dura, nos conduz à plenitude. E, talvez, este seja o maior presente: compreender que não se trata de receber algo material, mas de alinhar nossa existência ao que é verdadeiro.
O Natal não é apenas tempo de troca de presentes, mas de reencontros — consigo mesmo, com os outros e com o sentido da vida. O drama de um presente perdido e, posteriormente, encontrado, é apenas um símbolo de algo maior: o anseio humano por pertencimento, realização e verdade.
Que este Natal nos inspire a buscar menos o que nos falta e mais o que já somos. Que possamos trocar a ansiedade pela gratidão, as ilusões pela autenticidade e, principalmente, os endereços equivocados pelo retorno ao lar de nossa própria alma.
Artigo publicado (originalmente) em xapuri.info/correios-presente em 11 de janeiro de 2018 e acessado em 02 de dezembro de 2024.
Padre Joacir d’Abadia
Filósofo, Escritor e Pároco da Paróquia São José Operário – Formosa-GO
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