Entre olhares que tocam a alma e palavras que silenciam o indizível
“O rosto humano é o primeiro texto que o homem aprendeu a ler.”
— Vilém Flusser, Gestos (1994)
Mesmo entre tantas ocupações e compromissos, há um instante em que o humano se percebe só. Por mais que o tempo se encha de tarefas, algo grita dentro de nós: a falta do outro. E é nesse espaço de carência que se confessa o mais simples e profundo dos desejos:
“Eu quero tanto poder conversar olhando nos olhos de alguém! A vida tem me desafiado muito.”
O olhar é mais do que um gesto — é uma travessia. Ao olhar alguém, tocamos aquilo que Flusser chamou de o invisível visível, o instante em que o rosto deixa de ser superfície e se torna signo da alma. Ver e ser visto é, ao mesmo tempo, um ato de leitura e revelação; uma gramática silenciosa do espírito humano.
Paul Ricoeur, em sua fenomenologia da identidade, lembra que o homem não se resume ao “mesmo”, mas se constrói como “ipseidade”, isto é, como aquele que se doa e se narra a partir da relação (“Soi-même comme un autre”, 1990). Ainda recorda que o homem não é apenas o mesmo — ele é ipse, o que se narra e se refaz na presença do outro. Assim, quando duas almas se olham, não apenas se reconhecem — elas se narram mutuamente. O olhar, então, é narrativa silenciosa que tece uma história comum.
Habermas, ao refletir sobre a ética da comunicação, afirma que o verdadeiro diálogo não busca dominar, mas compreender (“Theorie des kommunikativen Handelns”, 1981). O encontro entre dois olhares sinceros é o ápice desse diálogo: nele não há vencedores, apenas verdade compartilhada, porque só o entendimento recíproco sustenta o vínculo humano.
George Berkeley, por sua vez, ensinou que “ser é ser percebido” (“esse est percipi”, 1710). Se assim for, o outro só se torna real quando é visto com profundidade, e nós só existimos de fato quando somos percebidos com amor. A realidade humana é, portanto, um espelho de presenças: o ser é visto e, ao ser visto, se torna.
Neste instante de entrega — quando o olhar toca o olhar — o tempo se suspende. Parece que algo consome as forças e, ao mesmo tempo, renova o fôlego. No abismo silencioso de dois olhares, Deus sopra novamente o espírito sobre o barro, e o barro volta a pulsar.
Depois, cada um segue sua história, seus caminhos, seus deveres. Mas algo fica: a memória do encontro, a certeza de que, ao olhar alguém nos olhos, tocamos o que há de mais divino na experiência humana — o mistério da presença. Assim, ao olhar profundo nos olhos de alguém, nós tocamos sua alma, uma vez que comunicamos com seu interior. Surge, com isso, as mais puras palavras para dizer um ao outro, tendo em vista a solidez da amizade que gera deste encontro. Duas almas que se olham em profundidade e conseguem enxergar a verdade que está numa e noutra pessoa. O fortalecimento deste encontro ganha mais força ainda na medida que ambos conseguem expressar as emoções mais íntimas de suas vidas: a profundidade do encontro.
Referências Filosóficas
• FLUSSER, Vilém. Gestos. São Paulo: Annablume, 1994.
• RICOEUR, Paul. Soi-même comme un autre. Paris: Éditions du Seuil, 1990.
• HABERMAS, Jürgen. Theorie des kommunikativen Handelns. Frankfurt: Suhrkamp, 1981.
• BERKELEY, George. A Treatise Concerning the Principles of Human Knowledge. Dublin, 1710.
Por:Padre Joacir Soares d’Abadia
Filósofo, escritor e autor de 24 livros publicados e membro de seis academias literárias.
Pároco da Paróquia São José Operário – Diocese de Formosa (GO)
Instagram: https://www.instagram.com/padrejoacirdabadia
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