Gaúchos da fronteira se mobilizam pela oportunidade de estar com Leão XIV no Uruguai e na Argentina

Para quem mora nas dioceses do Rio Grande do Sul que fazem fronteira com Uruguai e Argentina, a visita do Santo Padre aos países vizinhos é quase como se o Brasil fosse parte da viagem apostólica à América do Sul.

As dioceses de Rio Grande, Pelotas e Bagé fazem fronteira com o Uruguai. A diocese de Uruguaiana tem fronteira tanto com a Argentina como com o Uruguai.

O papa Leão XIV vai passar por Montevidéu, Florida e Paysandu. Entre os municípios gaúchos, o mais próximo do país vizinho é a pequena Barra do Quaraí – que está a cerca de 275 quilômetros de Paysandu. Da capital Montevidéu e de Florida a mais próxima é Chuí, no extremo sul gaúcho, distante cerca de 320 quilômetros.

Barra do Quaraí, de apenas 4,5 mil habitantes, fica a pouco mais de três horas de carro de Paysandu. A cidade conta com uma paróquia apenas – São José Operário – que está se organizando para este momento de fé, diz o padre José Possidonio do Nascimento, 41 anos, paraibano que está há três anos na fronteira gaúcha com o Uruguai.

“A notícia da presença do Santo Padre tão próxima de nós foi recebida com muita alegria e entusiasmo”, disse o padre à ACI Digital. “Vivemos uma realidade muito particular de fronteira, e a proximidade com o Uruguai faz parte do nosso cotidiano e também da nossa vida pastoral. A Paróquia São José Operário está se mobilizando para participar desse momento. Temos, até agora, 30 pessoas confirmadas que irão conosco. Estamos nos organizando em conjunto com uma paróquia vizinha do Uruguai, que já confirmou quatro ônibus. Além disso, sabemos que dezenas de pessoas da região pretendem fazer a viagem em carros particulares”.

Padre José explica que a proximidade com a cidade uruguaia de Paysandu facilita o deslocamento sem a necessidade de hospedagem. “Nossa programação será na modalidade bate e volta. A proximidade geográfica nos permite participar desse momento e retornar após a programação.”

O sacerdote relata que o clima entre os fiéis para o encontro com o Santo Padre é de muita expectativa. “Para muitos dos nossos fiéis, será a primeira oportunidade de estar tão perto do Sucessor de Pedro. Há uma alegria muito bonita entre as pessoas, porque não se trata simplesmente de participar de um grande evento, mas de viver uma experiência de comunhão com a Igreja.

Para nós que estamos nesta região de fronteira, a visita do Papa ao Uruguai ganha ainda um significado especial pela proximidade e pelos vínculos que temos com as comunidades uruguaias”.

Para o padre José, será a primeira chance de estar com o papa Leão XIV desde sua eleição em maio de 2025. “Já tive a graça de estar com o papa Bento XVI e com o papa Francisco, em Roma. Agora, poder viver novamente essa experiência, desta vez tão perto da nossa realidade pastoral e junto ao nosso povo, certamente terá um significado muito especial”, disse.

“O papa, como sucessor de Pedro, é para nós um sinal visível da unidade da Igreja. Estar com ele, escutar sua palavra, rezar e celebrar a Eucaristia juntos fortalece nos fiéis o sentimento de pertença à Igreja universal. Para nós, que vivemos diariamente a realidade da fronteira entre Brasil e Uruguai, há ainda uma mensagem muito bonita: a fé ultrapassa fronteiras geográficas. Podemos pertencer a países diferentes, falar com sotaques diferentes e viver realidades distintas, mas somos uma só Igreja. Creio que será um momento de muita graça e que ficará marcado na história e na memória de nossas comunidades”.

Pelotas, Bagé e Uruguaiana

Para o arcebispo de Pelotas, dom Jacinto Bergmann, a presença do papa Leão XIV no país vizinho fez com que ele mudasse os planos de comemoração dos seus 75 anos de vida e os 50 anos de ministério ordenado, ambos celebrados no final do mês de outubro.

“A ideia inicial era realizar a comemoração com a arquidiocese de Pelotas no final de semana entre 6 e 8 de novembro”, disse dom Jacinto Bergmann. “Contudo, com o anúncio do Vaticano, não há como concorrer. É importante que nos façamos presentes para mostrar a unidade da Igreja com o Romano Pontífice, que estará com os nossos vizinhos uruguaios”.

O bispo de Bagé, dom Cleonir DalBosco, vai à cidade de Florida, a 440 km de distância, onde está o santuário Nossa Senhora dos Trinta e Três, padroeira do Uruguai. O bispo de Uruguaiana, dom Clésio Facco, vai acompanhar uma excursão organizada pela paróquia São João Batista até Paysandu, distante 337 km. O arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, cardeal Jaime Spengler, também deve se fazer presente junto com pelo menos um dos bispos auxiliares da capital gaúcha.

O padre Alex Kloppenburg, pároco da paróquia Santa Teresinha, em Santana do Livramento, que faz divisa com a uruguaia Rivera, conta que na diocese de Bagé há organização por parte dos católicos para acompanhar o Papa nas três cidades uruguaias previstas pela Santa Sé.

“A maioria das paróquias da diocese está se organizando”, conta o sacerdote, que também pretende estar com Leão XIV no município de Paysandu, no dia 7 de novembro. “Temos conhecimento de iniciativas na cidade de Dom Pedrito, Rosário do Sul, São Gabriel, entre outros municípios. Muitas pessoas devem ir de carro, pois daqui de Livramento até Paysandu são 350 quilômetros. Nas conversas que temos a maioria vai sem hospedagem para voltar no mesmo dia, afinal se trata de uma viagem relativamente curta para nós”.

Para o sacerdote foi um momento de grande emoção a notícia da vinda do papa Leão XIV ao país vizinho. “Saber que o Santo Padre inicia sua primeira viagem à América Latina em uma nação que é nossa irmã, no pequeno Uruguai, no qual temos uma grande identidade por partilhar uma fronteira terrestre no caso de Santana do Livramento. É um orgulho, privilégio, sem dúvida.”

O retorno de um papa à América do Sul após alguns anos – a última visita do papa Francisco ao continente foi em 2018 quando esteve no Chile e Peru – representa para a professora aposentada e profissional do setor de turismo Gisela Castro Dornelles, que vive no município de Alegrete, no território da diocese de Uruguaiana, a segunda chance de estar próxima ao sucessor de Pedro.

“Vi São João Paulo II apenas pela televisão quando esteve no Brasil e recordo sua passagem pelo Rio Grande do Sul, em 1980”, diz ela. “Tive a chance de ir até o Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude, que marcou a vida de tantas pessoas. Agora, depois de tantos anos, teremos novamente a oportunidade de acompanhar um Papa muito perto de nós. O Papa Leão XIV estará na Argentina e no Uruguai e para nós, que estamos no Rio Grande do Sul, especialmente na região da Fronteira Oeste, ter a visita do Santo Padre tão próxima é algo realmente especial”.

Cuidados com a viagem

Gisela vai acompanhar um grupo de peregrinos até Buenos Aires e Luján, segundo destino da viagem apostólica de Leão XIV. O deslocamento será feito de ônibus com duração esperada de cerca de 15 horas para percorrer os 775 quilômetros que separam Alegrete da capital argentina. Com a experiência de quem já organizou diversas excursões religiosas, a empresária dá dicas para quem pensa em viajar por conta própria para ver de perto o Papa.

“A primeira orientação é não tratar a viagem como se fosse apenas um deslocamento dentro do Brasil. Apesar de sermos países vizinhos e termos muita facilidade de acesso por estarmos no Mercosul, estamos falando de uma viagem internacional e existem documentos e regras que precisam ser observados. É importante conferir com antecedência a documentação pessoal de todos os passageiros e também a documentação do veículo. Para quem vai dirigindo, é necessário estar com a habilitação válida, documento do veículo e seguro válido para o Mercosul. Se o motorista não for o proprietário do automóvel, também é importante verificar previamente a documentação necessária para comprovar a autorização para conduzi-lo”.

Para a empresária Patrícia Penteada, moradora de Pelotas e coordenação do Apostolado da Oração da Catedral Metropolitana São Francisco de Paula, a viagem tem um significado especial. “Nós rezamos diariamente as intenções de oração determinadas pelo papa Leão, pois somos a Rede Mundial de Oração do Papa”, disse Patrícia, que vai a Montevidéu e Florida. “Diariamente estamos conectados com o nosso Papa em oração e tentamos viver na prática as intenções de orações com gestos concretos em sintonia com o papa. Por esta razão, estar próximo do nosso pastor maior é uma grande emoção e alegria”.

Na excursão também estará o pároco da catedral de Pelotas, padre Quaraí Fernandes. “Desde que a imprensa começou a divulgar ficamos atentos às datas e aos países. Decidimos que se ele viesse ao Uruguai nós estaríamos presentes”, disse o padre. “Estar junto ao sucessor de Pedro é um momento muito bonito. Tive a chance de ir à Roma três vezes com o papa Francisco, então é uma graça grande ter a oportunidade pela quarta vez. Sairemos de Pelotas na quinta-feira à noite para a capital do Uruguai em uma viagem de 560 quilômetros e retornaremos no domingo à tarde”.(ACI Digital)

Integrantes do Apostolado da Oração da catedral são Francisco de Paula, em Pelotas, que também irão viajar ao Uruguai para estar com o papa. / Catedral São Francisco de Paula/Divulgação

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