A Igreja não pode declarar guerra à missa tradicional, diz cardeal Sarah

“Nós, como Igreja, não podemos declarar guerra àqueles que participam com devoção da missa apenas porque preferem uma forma a outra: essa é uma postura míope e totalmente ideológica, portanto, nem pastoral nem cristã”, disse o ontem (27) cardeal Robert Sarah. “É prejudicial e destrutivo para a Igreja”.

Sarah, ex-prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, falou ao jornal italiano Il Giornale sobre a importância da liturgia tradicional, que remonta à época do papa Gregório Magno e além, e que foi celebrada em todo o mundo até o Concílio Vaticano II (1962-1965).

Após o Concílio, a liturgia antiga foi abandonada, embora alguns padres continuassem a celebrá-la. O arcebispo de Dakar, Senegal, dom Marcel Lefebvre se manteve fiel a ela e fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X para manter a liturgia anterior à reforma do Vaticano II.

Em meados da década de 1980 houve as primeiras flexibilizações da proibição de fato por parte da Santa Sé. O papa Bento XVI, em 2007, autorizou todos os padres a celebrar a liturgia antiga. Para ele, estritamente falando, ela nunca havia sido proibida. O papa Francisco revogou a decisão de seu antecessor em 2021 e restringiu fortemente a liturgia romana clássica com seu motu proprio Traditionis custodes.

“Entre os efeitos da liberalização da forma extraordinária estava a influência positiva — eu diria até mesmo: a correção — de possíveis abusos na celebração da forma ordinária”, disse. “Esses abusos são atos extremamente graves, aos quais, no entanto, nunca devemos equiparar a própria forma ordinária. Muitos padres testemunham que a descoberta da forma extraordinária os ajudou a celebrar melhor a missa.”

“Acho que Bento XVI também demonstrou, nessa ocasião, uma atitude profundamente humilde e democrática”, continuou o cardeal, ao relembrar a decisão de 2007. “Ele queria garantir a maior divulgação possível, para que o Povo de Deus pudesse decidir por si mesmo, ao longo das décadas, qual a forma de vivência da fé que melhor lhe correspondesse. Tudo isso, porém, foi anulado por Traditionis custodes, ainda enquanto o papa emérito estava vivo.”

“Isso não me pareceu uma decisão nem sensata nem respeitosa”, explicou Sarah. “Mas Bento XVI, um homem manso como um cordeiro, deixou-se humilhar e, assim, ofereceu seu sofrimento a Deus em silêncio e oração, para se identificar melhor com a dor de Cristo por sua Igreja e purificá-la”.

Para Sarah, “o acesso às formas rituais reconhecidas e existentes há séculos nunca deve ser restringido artificialmente por meio de decretos. Se um rito não servisse à fé, ele desapareceria por si só; se, ao contrário, ele preserva e promove a fé, não devemos, de forma alguma, restringi-lo, pois com isso estaríamos restringindo a própria preservação e difusão da fé.”..CONTINUE LENDO

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