{"id":79231,"date":"2023-11-03T20:57:12","date_gmt":"2023-11-03T23:57:12","guid":{"rendered":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=79231"},"modified":"2023-11-03T20:57:12","modified_gmt":"2023-11-03T23:57:12","slug":"morte-e-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/morte-e-esperanca\/","title":{"rendered":"Morte e esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>O mist\u00e9rio da morte \u00e9 o maior desafio existencial da vida humana. Um desafio t\u00e3o humanamente exigente que corre o risco de ser tratado a partir de perigosa relativiza\u00e7\u00e3o, ou mesmo levar a atitudes cotidianas que negam a realidade da pr\u00f3pria morte: alguns conduzem a pr\u00f3pria vida como se a morte jamais viesse bater \u00e0 pr\u00f3pria porta. Mas o tempo \u00e9 voraz e, indistintamente, se esgotar\u00e1 para todos. O in\u00edcio de novembro, com a celebra\u00e7\u00e3o do Dia de Finados, qualifica o ser humano, com a oportunidade de cultivar o sentido de finitude, no exerc\u00edcio do sil\u00eancio e da ora\u00e7\u00e3o, emoldurado pela saudosa e reverente lembran\u00e7a dos que j\u00e1 morreram \u2013 familiares, amigos, pessoas pr\u00f3ximas, ou mesmo aquelas que est\u00e3o inscritas na hist\u00f3ria, por suas relevantes contribui\u00e7\u00f5es para a sociedade. Sil\u00eancio profundo e rever\u00eancia, emoldurados pela saudade, para atualizar estampas que re\u00fanem acontecimentos e hist\u00f3rias de vida, ajudando cada um a lidar com a finitude. Assim, compreender, com mais lucidez e humildade, que a vida \u00e9 dom, devendo ser uma oferta de si em benef\u00edcio do pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>A Celebra\u00e7\u00e3o de Finados, com homenagens nos cemit\u00e9rios ou no altar do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, proporciona ecos que precisam reverberar em cada dia, pois \u00e9 rem\u00e9dio para extirpar orgulhos e soberbas, \u00f3dios e rancores. Esses sentimentos ruins s\u00e3o dissipados quando cresce a compreens\u00e3o sobre a transitoriedade da exist\u00eancia, a espantosa fugacidade da vida. Uma fugacidade t\u00e3o espantosa que pode levar muitas pessoas a alimentarem ilus\u00f5es. Acreditarem que viver \u00e9 simplesmente saber desfrutar de tudo, permitindo-se agir perversamente, de modo indiferente em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo, na contram\u00e3o da solidariedade fraterna, desrespeitando tamb\u00e9m os bens da natureza. Aprender a lidar com o mist\u00e9rio da morte \u00e9 inigual\u00e1vel caminho para qualificar o viver humano, fundamentando-o na nobreza de atitudes solid\u00e1rias e na conquista de uma essencial sabedoria que permite reconhecer: a morte \u00e9 terrificante, mas n\u00e3o \u00e9 para sempre.<\/p>\n<p>Existencialmente um desafio, a morte \u00e9 simplesmente a porta tenebrosa de passagem para a luminosidade da vida que n\u00e3o passa \u2013 a vida no amor maior, na presen\u00e7a de Deus. Essa compreens\u00e3o alimenta um qualificado modo de viver, de tratar o semelhante e de bem exercer a pr\u00f3pria miss\u00e3o. &nbsp;Vale escutar o ap\u00f3stolo Paulo, escrevendo aos Cor\u00edntios, na primeira carta, quando testemunha que Cristo morreu pelos nossos pecados. Segundo as Escrituras, foi sepultado e, ao terceiro dia, foi ressuscitado. Iluminadora \u00e9 a narra\u00e7\u00e3o no cap\u00edtulo sete do Livro do Apocalipse, ao descrever uma multid\u00e3o imensa que ningu\u00e9m podia contar, gente de todas as na\u00e7\u00f5es, tribos, povos e l\u00ednguas. Todos estavam de p\u00e9, diante do trono e do cordeiro; vestiam t\u00fanicas brancas e traziam palmas na m\u00e3o. Proclamavam com voz forte: a salva\u00e7\u00e3o pertence ao nosso Deus, que est\u00e1 sentado no trono, e ao Cordeiro. Os que est\u00e3o vestidos com t\u00fanicas brancas s\u00e3o os que vieram da grande tribula\u00e7\u00e3o. Lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro.<\/p>\n<p>Mais adiante no Livro do Apocalipse, cap\u00edtulo 21, a refer\u00eancia \u00e0 morada de Deus com os homens. \u201cEle enxugar\u00e1 toda l\u00e1grima dos seus olhos. A morte n\u00e3o existir\u00e1 mais, n\u00e3o haver\u00e1 mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas de antes passaram\u201d. A f\u00e9 crist\u00e3 professa uma compreens\u00e3o rica e fecunda, de muitos cap\u00edtulos, fonte de uma esperan\u00e7a fidedigna &#8211; gra\u00e7a para enfrentar o tempo presente. A esperan\u00e7a que vem da f\u00e9 crist\u00e3 contribui para que o ser humano assuma o compromisso de viver para fazer o bem, na singularidade de cada carisma, voca\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o, no exerc\u00edcio de suas responsabilidades na constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. A realidade do cotidiano \u00e9 muito exigente, leva a cansa\u00e7os, mas a esperan\u00e7a crist\u00e3 fortalece o cora\u00e7\u00e3o de cada um, a partir da certeza da reden\u00e7\u00e3o e da vida eterna.<\/p>\n<p>Em contraponto \u00e0 morte est\u00e1 a esperan\u00e7a que \u00e9 luz luzente, alimento da luta pelo bem, da compaix\u00e3o pelo semelhante e do compromisso de buscar, com destemor, uma vida mais sustent\u00e1vel, na contram\u00e3o de todo tipo de consumismo que gera gan\u00e2ncias e mesquinhez, levando a guerras, indiferen\u00e7as e a uma organiza\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica e cultural excludente, alimentadora de desigualdades vergonhosas. Seja sempre buscada a esperan\u00e7a que confere \u00e0 vida um sentido aut\u00eantico, tornando-a instrumento do amor de Deus. O ap\u00f3stolo Paulo alerta na Carta aos Ef\u00e9sios que viver sem encontrar Cristo \u00e9 viver sem esperan\u00e7a, porque \u00e9 viver sem Deus no mundo.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a fidedigna nasce da experi\u00eancia de encontrar-se com Deus, aproximando-se da fonte que qualifica o viver, a cada dia. Essencial se torna, a partir do confronto existencial com a morte, cuidar da esperan\u00e7a que pavimenta a estrada de cada dia. O segredo \u00e9 buscar Deus, o Deus Pai de Jesus Cristo &#8211; Salvador e Redentor, fonte amorosa inesgot\u00e1vel para fortalecer o ser humano. Quem alimenta-se da esperan\u00e7a fidedigna n\u00e3o teme a morte, mesmo que sofra com sobressaltos existenciais inevit\u00e1veis. Enfrenta a dor alicer\u00e7ando-se em Deus. Assim, ganha uma sabedoria que habita somente o cora\u00e7\u00e3o daqueles que reconhecem: Deus \u00e9 o Senhor da vida que n\u00e3o passa, vencedor da morte. A esperan\u00e7a que vem de Deus \u00e9 fonte aut\u00eantica do amor que sustenta o cora\u00e7\u00e3o humano e o mant\u00e9m firme, em meio a contradi\u00e7\u00f5es e fragilidades. Aproximar-se de Deus, alimentar-se da sua esperan\u00e7a, constitui o aguilh\u00e3o que permite enfrentar a morte pela certeza da vida eterna.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><strong>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte(MG)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mist\u00e9rio da morte \u00e9 o maior desafio existencial da vida humana. 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