{"id":71806,"date":"2021-04-02T16:41:04","date_gmt":"2021-04-02T19:41:04","guid":{"rendered":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=71806"},"modified":"2021-04-02T18:41:27","modified_gmt":"2021-04-02T21:41:27","slug":"eco-do-grande-silencio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/eco-do-grande-silencio\/","title":{"rendered":"Eco do grande sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<p>Nesta Sexta-feira da Paix\u00e3o &#8211; a Sexta-feira Santa -, pela celebra\u00e7\u00e3o na liturgia, grande sil\u00eancio ecoa na Terra. Sil\u00eancio provocado por um grande grito: \u201cMeu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?\u201d. S\u00faplica do Redentor da humanidade, Jesus Cristo, o \u00fanico Senhor. O eco deste grande sil\u00eancio rasgou o v\u00e9u do templo de Jerusal\u00e9m, depois que uma escurid\u00e3o cobriu toda a Terra at\u00e9 \u00e0s tr\u00eas horas da tarde. &nbsp;A escurid\u00e3o que marca o princ\u00edpio do mundo \u2013 deserto, vazio e coberto de trevas, com o sil\u00eancio do caos. E o Esp\u00edrito Criador fecunda esse sil\u00eancio com a for\u00e7a da cria\u00e7\u00e3o, desdobra tudo em vida.<\/p>\n<p>O eco do grande sil\u00eancio que brota do peito do crucificado n\u00e3o \u00e9 o grito de um Deus desesperado. \u00c9 Deus emprestando a for\u00e7a recriadora de sua voz para ecoar a dor lancinante que enjaula o cora\u00e7\u00e3o do ser humano. A melodia \u00e9 dolorosa. Um grito de desespero e de abandono profundo, que traduz o sofrimento da humanidade em cada tempo de sua hist\u00f3ria. &nbsp;As dores e sofrimentos humanos se manifestam, assim, pela voz de Deus compassivo, amoroso e redentor &#8211; som que irrompe com for\u00e7a para gerar o eco de um grande sil\u00eancio. A humanidade, enjaulada nos modos de viver que est\u00e3o na contram\u00e3o da vida plena, experimenta, no grito de Jesus, a possibilidade de iniciar novo ciclo. O grande sil\u00eancio com o seu eco \u00e9 o reverso de toda a solid\u00e3o desoladora, manifestando o caminho para fecundante escuta da voz do amor que redime e salva.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma escolha: escutar o eco do grande sil\u00eancio, para transformar o cora\u00e7\u00e3o humano e regenerar as suas fibras com amor. O grito de Jesus, que condensa a voz de toda humanidade, tem for\u00e7a de reden\u00e7\u00e3o e vida nova. Exigiu, nas min\u00facias de sua engenharia, a encarna\u00e7\u00e3o do filho de Deus que, mesmo sendo Deus, n\u00e3o se apegou \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o divina. Jesus, esvaziando-se, inigual\u00e1vel na sua arquitetura, se fez obediente at\u00e9 \u00e0 morte &#8211; e morte de cruz. Ao seu nome, no c\u00e9u e na terra, se dobrem os joelhos, porque Ele \u00e9 o Senhor, o Salvador.<\/p>\n<p>A indisposi\u00e7\u00e3o para aprender com o grande sil\u00eancio da Sexta-feira Santa significa perder a oportunidade para amorosa escuta de Deus &#8211; leva ao risco do fracasso. Isto porque sem o grande sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel reconhecer a gram\u00e1tica da vida, superando a orgulhosa vaidade que adoece, as disputas, a mesquinhez e a indiferen\u00e7a. &nbsp;A falta de h\u00e1bito para lidar com o sil\u00eancio precipita o conjunto da sociedade no frenesi de um barulho ensurdecedor que fere o ser humano. Prejudica ainda a necess\u00e1ria capacidade para escutar, amorosamente, os clamores de outras pessoas, at\u00e9 daquelas com quem se convive na mesma casa. Gera indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos pobres e vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>O medo do sil\u00eancio, a falta de habilidade para vivenci\u00e1-lo, explica tamb\u00e9m a causa das solid\u00f5es que enlouquecem. Elas n\u00e3o s\u00e3o tratadas com o rem\u00e9dio que est\u00e1 no pr\u00f3prio ato de se silenciar. Busca-se a cura nos venenos que entorpecem sensibilidades, paralisam avan\u00e7os na solidariedade, petrificam percep\u00e7\u00f5es, robotizando mentes e cora\u00e7\u00f5es. Assim, o ser humano perde a capacidade genu\u00edna de se encantar pela palavra fecundada no sil\u00eancio necess\u00e1rio \u00e0 escuta, \u00e0 medita\u00e7\u00e3o. E a humanidade fica imersa em uma pobreza materializada nos calv\u00e1rios de muitos sofrimentos, que se perpetuam em pandemias n\u00e3o tratadas, devasta\u00e7\u00f5es n\u00e3o denunciadas, respostas humanit\u00e1rias retardadas, insanidades pol\u00edticas que desconsideram a vida &#8211; o bem maior, dom pleno que custa o sangue d\u2019Aquele que morre no alto da cruz, vencedor da morte por sua ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No mist\u00e9rio deste grande sil\u00eancio, a Sexta-feira da Paix\u00e3o, est\u00e1 a fonte da grande experi\u00eancia que pode recompor sensibilidades, produzir sabedoria, revitalizar a dimens\u00e3o human\u00edstica de cada pessoa. Esse \u00e9 o caminho para superar leituras e pr\u00e1ticas perversas, devolver a serenidade interior necess\u00e1ria a todos, capacitando o ser humano para desenvolver discursos e narrativas construtivas, urg\u00eancias deste tempo de destempero e de escassez de palavras recriadoras. As li\u00e7\u00f5es do grande sil\u00eancio da Sexta-feira Santa fortalecem institui\u00e7\u00f5es a servi\u00e7o da vida e dos valores fundamentais, qualificam homens e mulheres na compet\u00eancia para dialogar e exercer a solidariedade.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7a e alcan\u00e7a fecundidade pelo exerc\u00edcio do sil\u00eancio que evita a multiplica\u00e7\u00e3o de palavras distantes dos prop\u00f3sitos crist\u00e3os: edificar e consolar cada pessoa. O ponto de partida \u00e9 dominar o medo de se silenciar, debelando o h\u00e1bito de muito falar, at\u00e9 para tentar remediar o irremedi\u00e1vel. Contribui para cultivar a coragem desse exerc\u00edcio a preciosa indica\u00e7\u00e3o do escritor Thomas Merton: tomar sobre si o fardo da cruz de Cristo, isto \u00e9, a humildade, a pobreza, a obedi\u00eancia e a ren\u00fancia, e encontrar paz para a alma. O gesto de Jesus, diz o autor, \u00e9 a \u00fanica e a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o, porque todas as outras levam a mortes. J\u00e1 a revolu\u00e7\u00e3o de Jesus significa a morte que faz brotar nova vida, renovando todas as coisas. Tudo come\u00e7a e se fecunda pela aten\u00e7\u00e3o amorosa dada ao eco do grande sil\u00eancio desta Sexta-feira Santa, a Sexta-feira da Paix\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/strong><\/p>\n<p><strong>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte (MG)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta Sexta-feira da Paix\u00e3o &#8211; a Sexta-feira Santa -, pela celebra\u00e7\u00e3o na liturgia, grande sil\u00eancio ecoa na Terra. Sil\u00eancio provocado por um grande grito: \u201cMeu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?\u201d. S\u00faplica do Redentor da humanidade, Jesus Cristo, o \u00fanico Senhor. 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