{"id":65728,"date":"2019-08-01T19:32:53","date_gmt":"2019-08-01T22:32:53","guid":{"rendered":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/?p=65728"},"modified":"2019-08-01T19:32:53","modified_gmt":"2019-08-01T22:32:53","slug":"migalhas-da-mesa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/portalcatolico.net\/portal\/migalhas-da-mesa\/","title":{"rendered":"Migalhas da mesa"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma l\u00f3gica perversa que rege o mundo, com suas din\u00e2micas e relacionamentos, produzindo para a maioria dos seres humanos uma realidade hostil, marcada pela exclus\u00e3o social, por todo tipo de discrimina\u00e7\u00e3o e pela corrup\u00e7\u00e3o &#8211; frutos da mesquinhez doentia em que a l\u00f3gica hegem\u00f4nica do dinheiro tudo preside. Essa insana supremacia adoece indiv\u00edduos e, por consequ\u00eancia, a sociedade. A todos mant\u00eam ref\u00e9ns de procedimentos e silogismos revestidos da falsa roupagem de um suposto bem e do desenvolvimento, revelando a voracidade de tudo o que representa o mal. A inadi\u00e1vel mudan\u00e7a de rumos \u00e9 desafio exigente, mas poss\u00edvel de ser superado: na l\u00f3gica do amor encontra-se a for\u00e7a necess\u00e1ria para redirecionar o mundo. Incontest\u00e1veis s\u00e3o os sinais de que as configura\u00e7\u00f5es da l\u00f3gica do amor operam o bem, fortalecem a justi\u00e7a e conquistam a paz. Li\u00e7\u00e3o a ser aprendida e vivida.<\/p>\n<p>Interpelante \u00e9 a passagem do Evangelho de Lucas: \u201cHavia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e dava festas espl\u00eandidas todos os dias. Um pobre, chamado L\u00e1zaro, cheio de feridas, ficava sentado no ch\u00e3o junto \u00e0 porta do rico. Queria matar a fome com as migalhas que ca\u00edam da mesa do rico, mas, em vez disso, os c\u00e3es vinham lamber suas feridas.\u201d As \u201cmigalhas que caem da mesa\u201d s\u00e3o a comprova\u00e7\u00e3o do predom\u00ednio da l\u00f3gica perversa, emoldurada pela arquitetura de promessas enganosas, fundamentadas at\u00e9 mesmo em decis\u00f5es de inst\u00e2ncias com credibilidade para convencer que \u00e9 bom, justo e necess\u00e1rio \u201cviver de migalhas\u201d.<\/p>\n<p>A for\u00e7a perversa de se \u201cviver de migalhas\u201d configura o abomin\u00e1vel status de considerar normal a discrepante distribui\u00e7\u00e3o de bens entre grupos da sociedade, o que s\u00f3 contribui para agravar o inadmiss\u00edvel e crescente abismo entre os que t\u00eam demais e os que vivem na mis\u00e9ria. Assim, o tecido da sociedade brasileira \u00e9 contaminado por uma polui\u00e7\u00e3o moral e desumanizante que deve ser contestada: as riquezas culturais, tradi\u00e7\u00f5es, hist\u00f3ria e religiosidade, particularmente a realidade socioambiental dadivosa desta na\u00e7\u00e3o, bens da cria\u00e7\u00e3o de um povo, jamais devem servir para atender a interesses de fam\u00edlias e de grupos, perpetuando a l\u00f3gica perversa de se sobreviver com as \u201cmigalhas da mesa\u201d.<\/p>\n<p>Vive-se um verdadeiro desastre humanit\u00e1rio e ecol\u00f3gico que indica a perversidade tamb\u00e9m no tratamento do meio ambiente. \u00c9 vergonhoso saber de propagandas e apresenta\u00e7\u00e3o de metodologias de explora\u00e7\u00e3o do meio ambiente, com contrapartidas que tentam justificar o injustific\u00e1vel, e for\u00e7a para convencer quem vive das \u201cmigalhas da mesa\u201d. Mas, sabe-se que no reverso das ofertas de vantagens sociais est\u00e1 oculto o lucro exorbitante, enquanto s\u00e3o alardeadas as poucas vantagens para o \u201cbem de todos\u201d. A fragilidade desse discurso sobressai ante \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das contas p\u00fablicas e da falta de condi\u00e7\u00f5es desse Estado diamante para cuidar adequadamente de sua gente. Ao contr\u00e1rio da realidade atual, em que o meio ambiente \u00e9 explorado vorazmente, esse Estado diamante, com sua hist\u00f3ria tricenten\u00e1ria, seria um jardim.<\/p>\n<p>Entristece a constata\u00e7\u00e3o de que expedientes arcaicos e manipuladores, cinzentos, obscurecem mentes e acovardam os que est\u00e3o, por dever de of\u00edcio, em linhas de frente. E at\u00e9 mesmo aqueles que deveriam ser estandartes de lucidez na corre\u00e7\u00e3o de rumos estejam envolvidos por pr\u00e1ticas de coopta\u00e7\u00e3o. O tratamento do meio ambiente, que re\u00fane todos os bens da cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode ter como ponto de partida a l\u00f3gica do dinheiro. Sublinhadas as riquezas muitas que o constituem, n\u00e3o se justifica o conjunto maior da sociedade vivendo das \u201cmigalhas que caem da mesa\u201d. Mas a sedutora for\u00e7a do dinheiro \u00e9 avassaladora. Impede enxergar que a extra\u00e7\u00e3o das riquezas naturais gera lucro e tamb\u00e9m preju\u00edzos: compromete len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos num tempo em que se anuncia a escassez de \u00e1gua, um veredito assombroso; provoca intoxica\u00e7\u00f5es, adoecendo e matando de modo similar a guerras, sem contar as criminosas trag\u00e9dias que ceifam vidas. Preju\u00edzos irrevers\u00edveis que n\u00e3o se pagam com p\u00edfios milh\u00f5es tirados de avolumados bilh\u00f5es, para resfriar o infernal aquecimento de consci\u00eancias.<\/p>\n<p>Em lugar de propagandas que convencem por sua articulada e ardilosa arquitetura, dos acordos que merecem revis\u00f5es e ajustamentos de condutas, por n\u00e3o serem dogmas, mas estreitamentos de interpreta\u00e7\u00f5es e ju\u00edzos, \u00e9 preciso uma aprendizagem civilizada do que \u00e9 a ecologia integral. Contudo, superar essa l\u00f3gica perversa de se viver e agradar com \u201cmigalhas que caem da mesa\u201d exige humildade. N\u00e3o a pr\u00f3pria daquele que \u00e9 o pai da mentira e do orgulho, mas a verdadeira humildade que convida todos a se assentarem na sala comum para refletir e partilhar ideias sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida e da sobreviv\u00eancia de uma sociedade, com a honestidade de se avaliar modelos de desenvolvimento, produ\u00e7\u00e3o e consumo. N\u00e3o sendo assim, com a sedu\u00e7\u00e3o de ilus\u00f3rio desenvolvimento, o lado perverso de enriquecer poucos e manter satisfeitos a grande maioria \u201ccom migalhas\u201d avoluma-se, impondo a autodestrui\u00e7\u00e3o e o massacre na sociedade. O peso \u00e9 sempre maior para os mais pobres, mas as consequ\u00eancias nefastas, cedo ou tarde, chegar\u00e3o \u00e0queles que amealharam riquezas, construindo muros mais altos, por terem mais, ao inv\u00e9s de aumentarem as suas mesas para a partilha.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode permitir que o dinheiro tenha tanto poder de sedu\u00e7\u00e3o, a ponto de comprometer os ecossistemas e o uso sustent\u00e1vel dos bens da cria\u00e7\u00e3o, depredando a capacidade regenerativa da natureza nos seus diversos setores e aspectos. Por isso mesmo, \u00e9 necess\u00e1ria uma ecologia econ\u00f4mica, que leve a s\u00e9rio a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente como parte integrante do desenvolvimento. N\u00e3o basta dizer que a depreda\u00e7\u00e3o em s\u00edtios, a exemplo da Serra da Piedade, \u00e9 responsabilidade de outros. \u00c9 imprescind\u00edvel incluir nesse processo a qualidade de metodologias colocadas sobre a mesa para que, em lugar de \u201cmigalhas\u201d, caiam verdades e entendimentos honestos. Somente assim pode-se comprovar a inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o agredir e ferir o territ\u00f3rio sagrado do Santu\u00e1rio da Padroeira de Minas, com claro desrespeito e preju\u00edzo para o cora\u00e7\u00e3o deste Estado, por comprovada gan\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O direito de serventia, de um tempo em que o Direito era outro, n\u00e3o isenta de se fazer o que \u00e9 considerado justo e correto agora. N\u00e3o se pode aceitar que interesses pr\u00f3prios se sobreponham a outros muito mais importantes, nesta hist\u00f3ria protagonizada pelos exploradores atuais. Respeitar o territ\u00f3rio sagrado e n\u00e3o depredar o meio ambiente, como est\u00e1 ocorrendo na Serra da Piedade, \u00e9 o m\u00ednimo que se espera da lucidez judici\u00e1ria e da postura \u00e9tica-cidad\u00e3. Para que seja ver\u00eddico o argumento de que se est\u00e1 apenas recuperando um vergonhoso passivo ambiental, \u00e9 preciso que se prove isto, judicial e empresarialmente, e em sinal de respeito sair imediatamente do territ\u00f3rio sagrado. O Estado diamante n\u00e3o merece celebrar o ano jubilar de 60 anos da proclama\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora da Piedade, Padroeira de Minas, no dia 31 de julho 2020, num Santu\u00e1rio de 252 anos de peregrina\u00e7\u00f5es na f\u00e9, com 220 carretas transitando diariamente em mais de 400 viagens, o que degrada o territ\u00f3rio pertencente ao povo. \u00c9 o primeiro sinal das muitas e necess\u00e1rias atitudes que poder\u00e3o alicer\u00e7ar uma ecologia integral, sob pena de se viver, todos, sem exce\u00e7\u00e3o, das \u201cmigalhas que caem da mesa\u201d.<\/p>\n<p>Dom Walmor Oliveira de Azevedo<\/p>\n<p>Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte (MG)<\/p>\n<p>Presidente da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma l\u00f3gica perversa que rege o mundo, com suas din\u00e2micas e relacionamentos, produzindo para a maioria dos seres humanos uma realidade hostil, marcada pela exclus\u00e3o social, por todo tipo de discrimina\u00e7\u00e3o e pela corrup\u00e7\u00e3o &#8211; frutos da mesquinhez doentia em que a l\u00f3gica hegem\u00f4nica do dinheiro tudo preside. 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